domingo, 17 de janeiro de 2016

ELEIÇÃO CORPORATIVA E INDIVIDUAL EM ROMANOS 9: UMA RESPOSTA A BRIAN ABASCIANO



Por Thomas Schreiner *

            É gratificante saber que alguém ainda está lendo meu artigo sobre Romanos 9 mais de dez anos depois de sua publicação! É claro, seria ainda mais gratificante se Brian Abasciano concordasse comigo![1] Ele sinaliza sua concordância com minha afirmação de que Romanos 9-11 “trata da salvação de Israel”, mas ele difere de mim com respeito à eleição corporativa. Eu argumentarei abaixo que o argumento de Abasciano é falho porque a conexão que ele faz entre eleição corporativa e a participação dos indivíduos não é convincente lógica e biblicamente. Antes de responder especificamente, eu gostaria de esboçar em alguns elementos do meu artigo anterior, pois ele servirá como o pano de fundo necessário para a minha réplica.

I. A QUESTÃO EM ROMANOS 9 É A SALVAÇÃO

            A questão que preocupa Paulo em Romanos 9-11 é a salvação de Israel, ou mais precisamente, o fato de que a maioria dos israelitas em seu dia não era salva. É claro a partir de Romanos 8 que as promessas originalmente dadas a Israel pertenciam aos crentes em Jesus Cristo, e parece que a maioria daqueles que criam em Cristo em Roma era de gentios.[2] O dom escatológico do Espírito tinha sido dado aos gentios, significando que a era da promessa tinha chegado (cf. Rm 8.9-10). A promessa da nova aliança de que a lei de Deus seria mantida estava sendo cumprida nos cristãos gentios (Rm 8.4; cf. Ez 11.18-19; Jr 31..1-34). Os crentes em Jesus Cristo são “filhos de Deus” (huioi theou, Rm 8.14, 19),[3] filhos de Deus (tekna, Rm 8.16, 17, 21), e adotados (huiothesia, Rm 8.15, 23). Eles são os eleitos de Deus (eklektoi, Rm 8.33) e herdeiros (kleronomoi, Rm 8.17) e são assegurados da glória futura (doxa, Rm 8.17, 18, 21).[4] Aqueles que creem em Jesus Cristo são conhecidos de antemão, predestinados, chamados, justificados e glorificados (Rm 8.29-30).

            O que é impressionante sobre estes vários termos é que eles representam as promessas que o Senhor tinha feito a Israel como seu povo escolhido. Em Rm 9-11 Paulo responde a questão quanto a se as promessas salvíficas de Deus feitas a Israel serão cumpridas. As promessas de Deus foram exaustas na igreja de Jesus Cristo, composta principalmente de gentios? O que aconteceu com as promessas de que Israel seria o filho eleito de Deus, os filhos do Senhor, seu filho adotado e os herdeiros da promessa com a garantia da glória futura? Nós vemos a partir da conexão entre Rm 8 e 9-11 que Paulo não se desvia de seu argumento em Romanos 9-11 como alguns comentaristas anteriores afirmaram. Em vez da salvação dos gentios, que é tão lindamente descrita em Romanos 8, naturalmente levanta a questão que Paulo responde em Romanos 9-11. Se a Igreja de Jesus Cristo, composta principalmente de Gentios, tem herdado as promessas feitas a Israel no AT, Deus cumprirá suas promessas salvíficas a Israel?

            Nós vemos, então, que a questão que Paulo responde em Romanos 9-11 é se as promessas salvíficas de Deus a Israel serão realizadas. Ele não está simplesmente falando do destino histórico de Israel, se alguém separa o destino histórico de Israel da sua salvação. Nós temos fortes evidências de que a questão na mente de Paulo ao longo de Romanos 9-11 é a salvação de Israel, e ele afirma enfaticamente que Deus cumprirá suas promessas salvíficas (Rm 9.6). Quando Paulo diz que ele está quase disposto a ser anátema por causa dos seus companheiros israelitas (Rm 9.3), a palavra “anátema” (anathema) refere-se a ser cortado de Cristo, isto é, experimentar o juízo eterno (cf. Gl 1.8-9)[5]. A razão pela qual Paulo quase poderia querer ir para o inferno é porque muitos de seus compatriotas israelitas não eram salvos. Paulo especificamente informa ao leitor em Rm 10.1 que sua súplica é pela salvação de Israel. A dor de Paulo não pode ser traçada aos infortúnios políticos de Israel, pois Paulo não quereria ser separado de Cristo para sempre simplesmente porque Israel estava sofrendo politicamente nas mãos dos Romanos ou porque Israel não foi abençoado com prosperidade material. Ele está entristecido porque a maioria do Israel étnico foi separada de Cristo, e consequentemente encabeçada para a destruição e julgamento final (Rm 9.1-5).

            O restante de Romanos 9-11, porém, explica que Deus cumprirá suas promessas salvíficas a Israel, como a declaração em Rm 9.6 explica: “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado.” A questão que Paulo lida em Romanos 9-11 é a salvação de Israel! Em vez disso ele pega o argumento de Romanos 8, argumentando que a verdadeira semente de Abraão são os filhos de Deus (tekna tou theou, Rm 9.8), e os filhos da promessa (tekna tes epangelias, Rom 9.8). Quando Paulo se refere aos “filhos de Deus”, ele sempre tem em mente aqueles que são salvos (Rm 8.16, 21; Fl 2.15; Gl 4.28). Assim também, em Rm 9.11–12 Paulo argumenta que a eleição de Deus não é “por obras, mas por aquele que chama.” Em outro lugar em Paulo as obras são uma questão soteriológica (Rm 3.20, 27–28; 4.2, 6; 9.32;11.6; Gl 2.16; 3.2, 5, 10; Ef 2.9; 2 Tm 1.9; Tt 3.5). Da mesma forma, o chamado em Paulo refere-se mais frequentemente ao chamado para a salvação (1 Co 1.9; Gl 1.6, 15;5.8; 1 Ts 2.12; 4.7; 5.24).

            O argumento em todo o capítulo 9 de Romanos se refere à salvação, pois Paulo contrasta os “vasos de ira — preparados para a destruição” com os “vasos de misericórdia que ele preparou de antemão para a glória” (Rm 9.22-23). A palavra para destruição (apoleia) tipicamente se refere à destruição eterna em Paulo — a destruição que será aplicada para sempre no juízo final (Fl 1.28; 3.19; 2 Ts 2.3;1 Tm 6.9). De um lado, Paulo frequentemente usa a palavra “glória” (doxa) para se referir à vida eterna (Rm 2.10; 8.18; 1 Ts 2.12; 2 Tm 2.10). Além disso, a palavra “misericórdia”, quando ligada à “glória”, quase certamente se refere à misericórdia salvífica que é concedida ao seu povo.

            O que é vital ver é que Romanos 9 não pode ser separado os capítulos 10-11. Os capítulos são uma unidade, e em todos os três capítulos Paulo explica como os propósitos salvíficos de Deus para Israel são realizados. Paulo não se desvia para outro tópico em Rm 9.30-10.21 onde Israel é culpado por se esforçar para ser salvo por obras em vez de colocar sua fé em Jesus Cristo. Assim também, em Rm 11.1-10 Paulo se apresenta como um exemplo de um remanescente salvo, e a presença de um remanescente prevê que Deus fará uma grande obra no futuro. Na verdade, Romanos 11 culmina com a promessa escatológica de que todo o Israel será salvo (Rm 11.26), que representa o cumprimento da palavra de Deus a Israel por Romanos 9.6.[6]

II. A QUESTÃO DA ELEIÇÃO CORPORATIVA

1. Entendimento de Abasciano a respeito da entidade corporativa e a individual. Abasciano mantém que minha visão da salvação de Israel está fundamentalmente correta, mas eu me afasto quando ela vem à eleição corporativa. É importante entender que a minha discussão da eleição corporativa segue a discussão da salvação, pois a eleição em vista em Romanos 9-11 refere-se à salvação de Israel. A salvação de Israel e a eleição corporativa estão rigorosamente entrelaçadas nestes capítulos. Além disso, Abasciano captura a substância do meu argumento a respeito da eleição corporativa, pois eu afirmo que as duas são inseparáveis em Romanos 9 de modo que não funciona dizer que Paulo fala apenas de eleição corporativa de forma que a eleição individual é excluída.[7] Antes o que nós temos em Romanos 9-11 é ambas eleição corporativa e individual, pois nós não podemos ter uma sem a outra. Se indivíduos não são eleitos, não se pode ter um grupo corporativo.  Segue-se, então, que Paulo pode focar na eleição corporativa sem no mínimo sugerir que a eleição individual é excluída. Na verdade, eu ainda afirmo que tal relação lógica entre eleição corporativa e individual deve ser o caso, pois a eleição corporativa e individual são, como Frank Sinatra cantou sobre amor e casamento, logicamente inseparáveis. “Você não pode ter um sem o outro.”

            Abasciano tenta refutar minha visão argumentando que compreendi mal a visão arminiana da eleição corporativa ao explicá-la de forma simplista demais e que eu faço um espantalho para sustentar a tese que eu desenvolvo. A eleição corporativa, ele mantém, é primária e o foco, enquanto a participação individual em tão eleição corporativa é secundária. A ênfase na eleição corporativa “deve incluir indivíduos em sua extensão até certo ponto” (p.2). Mas eu cometi o erro diz Abasciano, de tornar a eleição individual a primazia em vez da eleição corporativa, quando a realidade é na verdade o contrário. Daí, Abasciano afirma que eu me tornei presa de um “ponto de vista individualista, moderno, ocidental” (p.3). Abasciano introduz uma série de argumentos para apoiar seu julgamento, o qual eu me voltarei no devido tempo, mas sua posição permanece ou cai com a afirmação de que a eleição corporativa é primária e os indivíduos são incluídos em algum sentido. Mas em que sentido, na visão de Abasciano, os indivíduos são incluídos? Os indivíduos são eleitos por Deus? Não de acordo com Abasciano.  Ele afirma que não há “uso evidente de linguagem da eleição para a salvação em referência a um indivíduo” (p.5), nem há qualquer “conceito de eleição direta de indivíduos como indivíduos... em nenhum lugar em Paulo ou no NT” (p.6).

            É claro, então, que a eleição corporativa, de acordo com Abasciano, na envolve também eleição individual. Mas isto levanta uma outra questão. Assim qual é o relacionamento que Abasciano vê entre a eleição corporativa e a inclusão em algum sentido de indivíduos? Como os indivíduos são incluídos nesta tal visão mais matizada de eleição corporativa? A resposta finalmente aparece na p.12. Indivíduos gozam do benefício da eleição corporativa pela fé. “A fé sempre foi o meio para o indivíduo verdadeiramente possuir gozar das bênçãos da eleição divina corporativa” (p.12). A eleição corporativa é incorretamente definida, Abasciano insiste, se alguém pensa que o que é verdadeiro do grupo também é verdadeiro de cada indivíduo no grupo. A participação individual é uma realidade secundária, e por isso para os indivíduos “a membresia na igreja é baseada na fé” (p.19; itálicos meus). 

            Eu não sou contrário a dizer a princípio que a eleição corporativa é primária e a eleição individual é secundária em Romanos 9 uma vez que me parece que a eleição corporativa é inseparável da eleição individual. Mas tudo isso depende do que uma significa pelas palavras que se usa. O problema está nos detalhes! De acordo com Abasciano o foco está na eleição corporativa, e então indivíduos participam no grupo pela fé. Aqui está a tese fundamental no argumento de Abasciano, e me parece que seu argumento falha neste próprio ponto, como agora eu explicarei.

            De acordo com Abasciano, a eleição corporativa refere-se à escolha de Deus de um grupo, mas a dimensão individual refere-se a nossa escolha de estar no grupo que Deus escolheu. Agora a eleição corporativa e individual estão certamente relacionadas, mas não na forma como Abasciano afirma. Se a dimensão individual da eleição corporativa simplesmente significa que os seres humanos creem a fim de serem salvos, então não há “eleição” na eleição corporativa. Ou, colocando de outra forma, não há eleição de Deus. Todo o ato de eleger é feito pelo indivíduo quando ele ou ela escolhe ser salva.

            Abasciano poderia objetar: “mas esta objeção falha porque Schreiner esqueceu que Deus escolheu corporativamente. Há uma eleição de Deus”. Além disso, ele poderia afirmar que ele já afirmou que não há tal coisa como eleição individual de qualquer forma, e então minha objeção simplesmente repete a suposta falha em meu artigo original. Eu direi mais sobre o que a eleição corporativa significa brevemente, mas aqui eu gostaria de chamar a atenção para a conexão inverossímil que Abasciano faz entre eleição corporativa e a participação individual. De acordo com Abasciano, eleição corporativa significa que Deus escolhe um grupo, mas Deus não escolhe ninguém pessoalmente e individualmente. Antes, indivíduos são eleitos apenas se eles tiverem fé. A estranha conexão que Abasciano forja entre os planos corporativa e individual aqui, uma vez que a eleição corporativa refere-se à escolha de Deus de um grupo em seu entendimento, mas a dimensão individual foca na escolha dos indivíduos de pertencerem ao grupo. Quando nós falamos de eleição corporativa Abasciano fala da escolha de Deus, mas quanto aos indivíduos ele fala da escolha dos homens. O leitor poderia ser facilmente confundido uma vez que Abasciano diz em todo o artigo que a eleição corporativa tem ramificações individuais. Mas tudo o que ele quer dizer com isso é que quando os indivíduos exercem fé e creem, eles então se beneficiam da eleição corporativa.

            A formulação de Abasciano do relacionamento entre eleição corporativa e participação individual é crucial, pois a base de seu artigo depende da ligação que ele forja entre eleição corporativa e participação individual nesta eleição. De acordo com Abasciano, toda a obra de Deus é encerrada na eleição corporativa, e nós acessamos os benefícios da eleição corporativa ao crer individualmente. É difícil para mim ver como a visão de Abasciano difere de qualquer maneira da visão arminiana tradicional (embora ele diga que ele “está totalmente ciente do lugar dos indivíduos”, p.12), pois no fim de tudo a escolha de Deus de um grupo corporativo não salva ninguém, e desde que não há tal coisa como eleição individual, as pessoas acessam os benefícios da eleição corporativa apenas ao crer. Quando primeiro eu li Abasciano, eu achei que ele estivesse tentando dizer que sua visão do relacionamento entre o corporativo e o individual era mais pormenorizada do que a visão arminiana tradicional, que de algum modo os indivíduos fossem incluídos (pelo menos em algum sentido vago) na eleição corporativa. Mas uma leitura atenta do seu artigo demonstra que este não é o caso de forma alguma, pois eleição corporativa apenas torna possível a salvação dos indivíduos. Abasciano discerne o relacionamento entre o grupo e o indivíduo de maneiras radicalmente diferentes, uma vez que o corporativo foca na obra de Deus e o individual eleva o papel dos homens em crer. Eu não consigo ver como este relacionamento disjuntivo entre corporativo e individual com respeito à eleição difere substancialmente da visão arminiana padrão.

III. O PROBLEMA COM A DEFINIÇÃO DE ELEIÇÃO CORPORATIVA DE ABASCIANO

            Dado o que Abasciano diz sobre o papel dos indivíduos (nós nos tornamos parte do grupo ao crer), eu retorno ao que ele quer dizer por eleição corporativa. Neste ponto eu reverto ao que eu disse em meu artigo uma vez que a visão de Abasciano representa uma formulação arminiana típica. Ele acha que Deus escolhe o grupo, e então os indivíduos tornam-se parte do grupo ao crer. Ainda me parece que este grupo ou entidade é um conjunto vazio ou uma entidade abstrata sem qualquer realidade, pois nos termos de Abasciano, quando Deus escolhe o grupo, indivíduos ainda não são parte do grupo. A participação dos indivíduos no grupo é baseada, ele nos garante, na fé. Mas então deve seguir-se que quando Deus escolhe o grupo, ninguém ainda está no grupo. Não se pode fazer parte do grupo antes que ele seja formado! E eleição corporativa não pode significar que Deus simplesmente reconhece aqueles que creem, pois então a palavra “eleição” fica completamente despojada de seu significado, e a noção de Deus escolhendo é apagada da palavra.

            A eleição corporativa, no esquema de Abasciano, funciona do seguinte modo. Deus escolhe que haveria a igreja de Jesus Cristo. Então os indivíduos escolhem fazer parte deste grupo corporativo, isto é, a Igreja. Mas imaginemos por um momento que ninguém escolhe crer, o que é logicamente possível. Se este fosse o caso, o grupo corporativo não teria ninguém nele. A igreja seria um conjunto vazio. Deus escolheu uma coisa, mas não há substância para o que ele tem escolhido. Na verdade, se ninguém crê nem mesmo existiria. Na verdade, até que os indivíduos reiam no esquema de Abasciano, não há ninguém no grupo corporativo de forma alguma. Se o grupo corporativo é preenchido com base na fé dos indivíduos, então se segue que o grupo corporativo que Deus escolheu é uma nulidade até que as pessoas creiam. Tudo o que a eleição corporativa quer dizer, então, é que Deus escolheu que quando as pessoas cressem elas fariam parte da Igreja.  Deus apenas escolheu que a entidade chamada Igreja existiria, mas a questão fundamental, de acordo com Abasciano, é a decisão de fé dos indivíduos.

            Deixe-me dizer uma palavra sobre a ilustração que eu usei anteriormente a respeito de um time de baseball. Nenhuma ilustração funciona perfeitamente, mas eu apresentei esta ilustração para demonstrar que as dimensões corporativa e individual da eleição são logicamente inseparáveis, e eu ainda acho que este ponto permanece. Imaginemos, para o bem do argumento, que Deus está escolhendo um time de baseball. A crítica de Abasciano da minha ilustração do time de baseball falha porque suas próprias premissas colorem a forma como ele percebe a ilustração. Ele assume que o time já existe quando Deus o escolhe. Mas nós precisamos lembrar da própria visão de eleição de Abasciano aqui. Primeiro, Deus tem que escolher o time corporativo, e então os jogadores escolhem ser membros do time. Quando Deus primeiro escolhe o time, os jogadores não podem já ser membros do time. Se este fosse o caso, a fé existiria antes de Deus fazer sua escolha corporativa. A ilustração de Abasciano de um time de futebol apenas funciona porque ele assume que Deus escolhe uma entidade que já existe, mas isto contradiz sua própria visão, uma vez que ele insiste que a escolha do indivíduo é o que torna alguém um membro do grupo salvífico de Deus. 

IV. ELEIÇÃO INDIVIDUAL NO NOVO TESTAMENTO

            Abasciano rejeita a própria noção de eleição individual em seu ensaio, embora ele não examine outros textos porque eles estão além dos limites da sua discussão de Romanos 9. Eu serei breve aqui também uma vez que ele não defende que sua afirmação de que a eleição individual é não-existente no NT, mas deve ser afirmado que se fosse encontrado mesmo um texto que ensinasse a eleição individual, o argumento de Abasciano falharia. Agora é bem sabido na erudição bíblica que os conceitos teológicos não podem ser limitados às palavras, como se o conceito de eleição pudesse ser restrito à palavra ekloge.[8] O conceito de que Deus elege indivíduos poderia ser demonstrado a partir de um número de textos, mas por questões de espaço eu limito a discussão a três textos.

            Nós vemos claramente em João 6 que a fé o dom de Deus dado apenas aqueles a quem Deus escolheu. Jesus diz no verso 35: “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede.” As palavras “vem” e “crê” nesta frase mutuamente se interpretam de modo que ambas designam uma vinda e crença que salva, pois aqueles que vem a Jesus e creem nele encontram vida através da sua morte.[9] Dois versos depois nós lemos: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37). É evidente a partir do verso 35 que “vir” é oura maneira de falar de crer. Além disso, a vinda e crença em ambos os versos 35 e 37 claramente se referem às ações de indivíduos, pois João usa a terceira pessoa do singular.[10] O verso 37 também ensina que todos aqueles dados pelo Pai ao Filho virão para o Filho, e que todos aqueles que vêm serão recebidos pelo Filho. Em outras palavras, todos aqueles dados pelo Pai ao Filho crerão no Filho. O texto não diz que apenas alguns daqueles dados pelo Pai ao Filho virão ao filho, mas todos aqueles dados virão e crerão. É claro que nem todos os seres humanos vêm ao Filho, pois nem todos creem.[11] Então, apenas alguns vêm ao Filho, e aqueles que vêm foram dados pelo Pai ao Filho, e todos aqueles dados pelo Pai ao Filho vêm, de modo que se segue que aqueles que vêm assim fazem porque o Pai os deu ao Filho. Além disso, o verso 44 esclarece que os seres humanos que não vêm ao Filho não foram trazidos pelo Pai: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou não o atrair.” Aqueles que não vêm se recusa m a crer porque eles não foram dados pelo Pai ao Filho. Nós podemos concluir, então, que João 6 ensina eleição individual para a salvação. Todos aqueles dados pelo Pai ao Filho chegarão à fé, enquanto aqueles não atraídos pelo Pai não podem e não virão.

            Outro texto que contradiz a visão de Abasciano é Rm 8.30: “E aos que predestinou, a estes também chamou, e aos que chamou também justificou, e aos que justificou também glorificou”. Aqui eu quero chamar a atenção para a frase: “aos que chamou também justificou”. Observe que Paulo refere-se a pessoas aqui, dizendo que todos aqueles que são chamados são justificados. Nós sabemos da teologia paulina que ninguém é justificado á parte da fé (ex. Rm 5.1). No entanto, Paulo diz aqui que todos aqueles que são chamados são justificados. A palavra “chamados” (ekalesan) dificilmente pode significar “convidados para ser salvos” aqui, pois é bastante óbvio que nem todos aqueles que são convidados para crer em Jesus são justificados. Alguns experimentarão juízo no último dia como Paulo ensina em muitos textos (ex. Rm 2.5, 16; 3.5-6). Daí, a palavra “chamados” aqui deve se referir a um chamado eficaz, pois de acordo com as palavras de Paulo em Romanos 8.29 todos aqueles que são chamados são justificados. Além disso, é evidente que o chamado é restrito a apenas alguns e não emitido a todos, uma vez que nem todos são justificados. Segue-se, então, que o chamado deve criar fé uma vez que a justificação é pela fé.  Não será suficiente para Abasciano dizer que o plural é usado aqui, e assim o texto apenas se refere a um chamado corporativo mas não individual. Pois não faz sentido dizer que a fé é uma decisão corporativa, mas não uma decisão individual. O que Paulo ensina aqui é bastante claro. Deus concede fé salvífica em sua graça para alguns mas não todos, e aqueles que assim crerem são justificados. Abasciano corretamente observa que a maior parte da linguagem sobre eleição no NT é corporativa, mas ele equivocadamente afirma que nenhum texto ensina eleição individual, e ele artificialmente separa a eleição corporativa da individual.

            Quanto a Ef 1.4: “assim como ele [Deus] nos escolheu nele [Cristo] antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor,”[12] Abasciano mantém que “a eleição de Cristo é certamente parte do pano de fundo e do significado do verso” (p.18). Tal declaração não está necessariamente em desacordo com o meu próprio ponto de vista. A questão que eu estava tentando tratar em meu artigo anterior é que em Ef 1.4 os seres humanos são os objetos diretos da eleição de Deus, não Jesus Cristo. Daí, a ênfase no verso não é na eleição de Cristo, mas na eleição de seres humanos. Nem Abasciano está errado em dizer que nós somos eleitos tanto instrumentalmente através de Cristo e como um tipo de incorporação em Cristo. O que Paulo não enfatiza em Ef 1.4, porém, é que Deus escolheu Cristo como o cabeça corporativo, e então a eleição da igreja torna-se uma realidade na medida que os seres humanos colocam sua fé em Jesus Cristo. O que Paulo enfatiza no verso não é a eleição de Cristo (ainda que ela esteja no pano de fundo), mas a eleição de crentes. Intérpretes arminianos colocam a ênfase deles em algo que não é declarado no verso, e ao mesmo tempo rebaixam a ênfase de Paulo na eleição divina de seres humanos. Isto me lembra de um tempo quando eu estava ensinando uma classe sobre Efésios, e eu perguntei: “O que este verso está ensinando?” E um estudante respondeu: “Ele ensina que nós devemos escolher Cristo para sermos salvos.” Eu respondi: “Não parece estranho que o estilo do verso enfatize justamente o oposto do que você disse? Ele enfatiza a escolha de Deus, não a nossa.” Isto é visto em Ef 1.5 também, onde como se para se opor à interpretação arminiana da escolha de Deus Paulo adicionasse que Deus “nos predestinou de acordo com o propósito da sua vontade.”

V. ELEIÇÃO CORPORATIVA NO ANTIGO TESTAMENTO

            Um dos argumentos fundamentais de Abasciano é que a eleição era corporativa no AT, e daí Paulo seguiria o padrão do AT e da tradição judaica. Ainda que nós aceitemos ao argumento de Abasciano aqui, sua interpretação só seria verificada se sua explicação particular do relacionamento entre o corporativo e o individual for sustentada. Eu já argumentei acima que esta visão falha, e daí afirmar que a eleição é fundamentalmente corporativa no AT dificilmente demonstra a plausibilidade de sua visão. Eu concordaria que a ênfase no AT é na eleição corporativa; o problema é com o traçado do relacionamento entre corporativo e individual.

            Mas eu também argumentaria que há uma diferença entre eleição corporativa no AT e no NT.[13] A questão aqui é bastante complexa, e é apresentada bem e em detalhes por Paul Jewett em outra obra, e assim eu posso apenas afirmar o caso aqui.[14]  Israel no AT era tanto o povo de Deus como uma entidade teocrática — uma nação. Nem todos aqueles dentro de Israel tinham um coração circuncidado, isto é, muitos em Israel pertenciam a nação politicamente mas não eram verdadeiramente membros do povo de Deus espiritualmente. Daí, a eleição corporativa de Israel não estava inextricavelmente ligada à renovação espiritual do povo de Deus. Mas a nova aliança que Deus fez com seu povo, a Igreja de Jesus Cristo, é diferente (Jr 31.31-34). Agora cada membro da comunidade do pacto conhece o Senhor. Isto não sustenta o ponto de vista de Abasciano, pois o texto em Jeremias deixa claro que Deus escreve a lei no coração do seu povo. O que distingue a antiga aliança da nova não é em ultima análise a fé, mas a graça de Deus em conceder ao seu povo um novo coração e o dom do Espírito (Ez 11.18-19; 36.26-27).[15] A afirmação de Abasciano de que a noção de eleição corporativa encontrada no AT é determinativa na noção de eleição corporativa entre o AT e o NT.

            A mesma falha se aplica a discussão de Abasciano do remanescente. O remanescente consiste naqueles que têm um coração circuncidado em Israel (veja Dt 10.16; 30.6; Jr 4.4). Eles são o verdadeiro povo de Deus que reside na entidade corporativa chamada Israel. Além do mais, eu estou confuso por que Deus precisa escolher um remanescente nos termos de Abasciano. Afinal, a eleição corporativa só é assegurada quando os indivíduos creem. Por que nós precisamos de um remanescente dentro do grupo corporativo quando, de acordo com Abascinao, indivíduos se beneficiam da eleição corporativa ao crer? Em seus termos nós temos dois grupos onde a eleição corporativa pe validade pela fé (Israel como um grupo corporativo e o remanescente), o que parece como uma multiplicação desnecessária de entidades.

            Além disso, Abasciano exagera seu caso. Há exemplos de eleição individual no AT, pois Abraão foi eleito individualmente por Deus. Neemias 9.7 afirma isto claramente: “Tu és o Senhor, o Deus que escolheu Abrão e o tirou de Ur dos Caldeus e lhe deu o nome de Abraão.” A mesma verdade é transmitida em Josué 24.3 em um contexto que enfatiza que Abraão veio de uma família de idólatras: “eu tirei seu pai Abraão da terra dalém do Eufrates e o conduzi por toda a Canaã e lhe dei muitos descendentes.” A ênfase aqui é na ação de Deus em remover Abraão da idolatria, e daí a eleição individual de Abraão claramente refere-se a salvação.[16]

            Da mesma forma, Isaque e Jacó foram eleitos individualmente por Deus. Eu não nego que em Rm 9.7-9 a eleição de Isaque e Jacó tem ramificações corporativas, mas a eleição deles foi individual e não corporativa! Abasciano afirma que “indivíduos seriam considerados como parte do povo do pacto baseado no relacionamento deles com Isaque” (p.4). Mas Paulo argumenta contra esta visão em Romanos 9, quando ele afirma que a mera linhagem de Abraão não significa que alguém é parte do povo do pacto (Rm 9.6-13). Abasciano afirma que Paulo argumenta corporativamente, de modo que o ponto é que Deus escolheu a nação de Israel em vez de Edom. Seu entendimento falho da eleição corporativa invalida seu argumento, de modo que ele falha em discernir o ponto principal de Paulo. Sim, a eleição tem dimensões corporativas, mas o ponto de Paulo em Romanos 9 vai mais a fundo. A mera linhagem física de Abraão ou Isaque não prova que um indivíduo é eleito, pois Deus nunca prometeu que a nação inteira de Israel corporativamente sem exceção receberia as bênçãos da salvação. Sempre tem havido um processo de remoção. O grupo corporativo tem sempre sido composto de indivíduos a quem Deus escolheu. O fluxo do argumento esclarece que Paulo pensa em eleição individual, não apenas eleição corporativa. Ele escolheu Isaque como um indivíduo em vez de Ismael. Ambos eram descendentes de Abraão, mas o Senhor não escolheu os descendentes de Abraão como um grupo. Em vez disso ele escolheu Isaque em vez de Ismael, e ele escolheu Jacó em vez de Esaú. E Paulo aplica este princípio a toda a história, até mesmo a seus próprios dias.

            E os singulares em Romanos 9? Abasciano afirma que estes singulares deveriam ser interpretados corporativamente, e se queixa que eu não lidei com isto o suficiente em detalhes em meu artigo. Permitam-me dizer nesta questão que eu estou de acordo com o argumento de Piper ao qual ele se refere, o qual eu penso que estabelece claramente o referente individual.[17] Além disso, nós já vimos que o AT ensina a eleição individual de Abraão, Isaque e Jacó, e Romanos 9 confirma a eleição individual de Isaque e Jacó. Abasciano encara um problema difícil aqui, pois ele insiste que todos os singulares em Romanos 9 devem ser interpretados corporativamente de acordo com seu entendimento de eleição corporativa (que significa que nenhum indivíduo é eleito por Deus). Mas dado o ensino do AT sobre a eleição de Abraão, Isaque e Jacó, e a ênfase na eleição de Isaque e Jacó em Romanos 9, é mais natural interpretar os singulares da maneira que eu aço. Eles indicam que Deus elege individualmente para a salvação. Isto não exclui a dimensão corporativa, é claro, desde que o corporativo e o individual estão inextricavelmente entrelaçados.

            Abasciano também comete outro equívoco hermenêutico. Ele assume que se o AT refere-se á eleição corporativa, então Paulo deve seguir a mesma linha de argumentação em Romanos 9. Mas nós não podemos limitar o uso do AT desta maneira, pois o que é decisivo é o fluxo do argumento na epístola do NT. Duas ilustrações podem ajudar. A apostasia de Israel no deserto era uma apostasia corporativa, mas Paulo e o autor de Hebreus a aplica a cristãos individuais (1 Cor 10.1–13; Hb 3.12–4.13).[18] Em Hebreus 12, como em Romanos 9, Esaú é usado para ilustrar o destino de alguém que não é salvo. Ainda que fosse argumentado que a referência do AT a Esaú é apenas corporativa (o que eu contesto), não necessariamente segue-se que o mesmo é verdadeiro na aplicação do NT do texto. Em Romanos 9 os singulares e o fluxo do argumento demonstram que Paulo está pensando em indivíduos, quando ele fala daquele sobre quem Deus mostra misericórdia e daquele a quem ele endurece (Rm 9.18). Afirmar que os singulares na verdade focam no todo corporativo, portanto, falha.

            Nem Abasciano integra corretamente Rm 9.30–10.21 no argumento. Aqui Paulo foca na falha de Israel em crer. Nós precisamos lembrar que Rm 9-11 é uma unidade, se Paulo refere-se à eleição ou fé. Observe que Abasciano desloca o foco do corporativo para o individual quando Paulo fala da necessidade de crer em Rm 9.30-10.21, mas ele se concentra no corporativo quando ele discute eleição em Romanos 9. Mas Paulo ainda refere-se a Israel corporativamente em Rm 9.30-10.21, então por que Abasciano de repente se move do corporativo para o individual? Ele poderia replicar que a fé é uma decisão individual. Eu concordaria. Mas não há base hermenêutica para ver um foco em ambas decisão corporativa e individual em Rm 9.30-10.21 e para minimizar a dimensão individual em Rm 9.1–23. Na verdade, Rm 9.30-10.21 indica que o meu entendimento do relacionamento entre  corporativo e o individual faz melhor sentido que o de Abasciano. Pois eu afirmo que o corporativo e o individual estão logicamente unidos.[19] Você não pode ter um grupo corporativo sem o individual. Um grupo corporativo de crentes não pode existir se indivíduos não creem, e assim também a eleição corporativa não pode existir sem eleição individual.

VI. A ACUSAÇÃO DE INDIVIDUALISMO

            Abasciano acusa meu ponto de vista de ser individualista e ocidental e afirma que seu ponto de vista reflete a cultura do primeiro século. Mas me parece que o contrário é o caso. É a sua visão que foca na escolha individual e fé de modo que ele pode até mesmo descrever tal fé como a base da eleição e dizer que “a membresia na igreja é baseada na fé” (p.19). Abasciano foca na fé do indivíduo como a base da salvação, e esta é uma noção notavelmente individualista. Na verdade, sua noção de eleição corporativa é completamente irrelevante para indivíduos a menos que eles creiam, e assim a escolha dos indivíduos para serem salvos é o que é decisiva. Eu não consigo ver, portanto, que a visão de Abasciano em qualquer sentido prático reflete a cosmovisão corporativa da era do NT melhor do que a minha própria. Na verdade, a noção de que Deus escolhe quem será salvo permanece como um forte lembrete de que as escolhas humanas individuais não são últimas no universo. Eu também estou convencido, é claro, de que indivíduos devem crer para serem salvos. Todas as pessoas em todo lugar devem se arrepender e colocar sua confiança em Jesus Cristo para serem poupadas da ira de Deus no último dia. Mas as escrituras também ensinam que Deus concede a fé como um dom (Ef 2.8-9), e que aqueles que são eleitos por Deus com certeza crerão (Ex. Jo 6.35, 37, 44, 64–65; 10.26; At 13.48; Rm 8.29–30).

VII. A QUESTÃO DA LÓGICA

            Abasciano concorda comigo que nós devemos apoiar a lei da não contradição. Mas ele afirma que a noção de que Deus determina quem crerá, e ao mesmo tempo julga aqueles que falham em crer porque eles deveriam ter crido, é uma contradição.[20] Eu argumento que nenhuma contradição existe aqui porque nós temos um mistério análogo ao mistério da Trindade. Abasciano rejeita meu ponto de vista porque, filosoficamente, mistério “deveria ser reservado para realidades nas quais nós não sabemos como algo funciona, mas nas quais não há contradição lógica.” Ele afirma que a doutrina da trindade não é contraditória porque uma contradição não é uma contradição dizer que há três pessoas e um ser, mas minha visão falha, de acordo com Abasciano, porque é uma contradição dizer que Deus predetermina todas as coisas e também dizer que os seres humanos fazem escolhas autênticas.

            Deveria ser notado que Abasciano acha que minha visão é contraditória porque sua definição de liberdade difere da minha. Abasciano defende liberdade libertária que significa que pessoas têm a habilidade de escolher o contrário. Eu argumentaria, porém, junto com Calvino e Edwards (e a tradição calvinista) em favor de uma visão compatibilista da liberdade. Seres humanos são livres quando eles escolhem de acordo com sua natureza, quando eles fazem o que eles querem fazer. Não é meu propósito defender tal visão da liberdade aqui, mas Abasciano está correto em dizer que minha visão é contraditória se a liberdade libertária é verdadeira. Mas eu argumentaria que liberdade libertária não se harmoniza com a lógica ou as Escrituras (cf. Atos 2.23), e daí sua objeção neste ponto falha.

            A questão do mistério que Abasciano levanta é complexa e merece um tratamento mais detalhado do que pode ser dado aqui, pois ela levanta o problema do mal e o papel do mistério na teologia. Eu acho que nós não deveríamos rapidamente recorrer ao mistério na formulação teológica, e é imperativo que o mistério seja localizado onde a escritura o estabelece. Eu simplesmente quero dizer em resposta ao argumento específico de Abasciano que ele mal demonstrou em suas declarações que nós podemos compreender por que a Trindade não é contraditória. Ele alegremente afirma que os problemas lógicos da Trindade são resolvidos porque nós sabemos que há três pessoas mas um ser divino. Eu penso que ele formulou a doutrina da trindade corretamente, mas nós precisamos nos lembrar que nosso entendimento do que nós queremos dizer por “pessoas” e “essência” ou “ser” é limitado por nossa finitude. Estamos dizendo que temos verdadeiramente resolvido logicamente a natureza da Trindade porque nós dizemos que há três e um, e os três e um devem ser distinguidos?Eu creio, é claro, que há três pessoas e uma essência divina, mas não é claro para mim que o problema tem sido logicamente resolvido simplesmente pelo dizer “três” e “um” e “pessoas” e “essência”. O que nós queremos dizer por estes termos excede nosso entendimento. Eu não acho que a doutrina da trindade é logicamente contraditória, mas como ela se encaixa é misterioso — além de nossa compreensão.[21] Assim, também, Deus determina todas as coisas, mas as escolhas humanas são autênticas e genuínas. Note o que não está sendo dito. Eu não estou dizendo que as escolhas de Deus e as nossas escolhas são a mesma coisa. Deus faz escolhas, e nós fazemos escolhas, e ainda assim não há uma contradição entre a autenticidade de nossas escolhas e a determinação de todas as coisas por Deus. Nós não podemos compreender como é isto, pois nós não entendemos completamente como as escolhas divinas operam, mas não é uma contradição lógica dizer que nossas escolhas são totalmente autênticas, ainda que nós não possamos explicar totalmente como isto poderia ser o caso. Pois tampouco nós podemos explicar satisfatoriamente como há um Deus e ainda três pessoas. Abasciano minimiza um lado da questão. Ele destrói a tensão bíblica entre soberania divina e responsabilidade humana, deixando-nos com apenas a responsabilidade humana. Esta abordagem falha em explicar uma miríade de textos.[22]

VIII. CONCLUSÃO

            Abasciano aparentemente pensa ter apresentado um entendimento mais detalhado da relação entre eleição corporativa e o papel dos indivíduos. Eu não consigo ver, porém, que ele difere em qualquer forma substantiva da visão arminiana padrão, pois quando vamos a sua parte inicial nós vemos que Deus elege corporativamente, mas sua eleição da Igreja apenas se aplica aos indivíduos quando eles creem. Abasciano faz um bom trabalho em apresentar sua visão, mas no final das contas ele tem as mesmas falhas que sempre têm afligido a interpretação arminiana. Ele nega a eleição individual quando o NT claramente a ensina, e nós vimos que a eleição individual está no AT também. A eleição corporativa é tornada sem significado, no esquema de Abasciano, pois ela constitui a eleição de um conjunto vazio — uma nulidade. Toda a ênfase é colocada na fé humana, e a graça de Deus em eleger seu povo para a salvação é apagada. Ironicamente, embora Abasciano fale de eleição corporativa, sua ênfase cai sobre as decisões dos indivíduos, de modo que ele torna-se presa do individualismo ocidental em vez de exaltar a soberania divina. Nós mantemos a visão da Escritura e de Romanos 9 se nós ensinamos que a eleição é individual e corporativa, e que estas são logicamente inseparáveis. Mais importante, nós somos lembrados de que Deus recebe toda a glória por nossa salvação. Nós colocamos nossa fé em Cristo porque Deus nos elegeu antes da fundação do mundo. Um dos versos favoritos de Agostinho em sua controvérsia com Pelágio era I Co 4.7, e eu concluo minha resposta: que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? 

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino




           




* Thomas Schreiner é professor do Novo Testamento no Southern Baptist Theological Seminary,
2825 Lexington Road, Louisville, KY 40280.
[1] Eu quero expressar minha gratidão a Bruce Ware e Jim Hamilton que leram este artigo e sugeriram várias formas de melhorá-lo.
[2] Na defesa do ponto de vista de que a maioria era gentia, veja Thomas R. Schreiner, Romans
(BECNT; Grand Rapids: Baker, 1998) 11–15.
[3] Todas as citações da escritura, a menos que indicadas de outra forma, são da ESV.
[4] O verbo sundoxazo é usado em Rm 8.17em vez do substantivo doxa.
[5] Cf. H. W. Kuhn, “anathema,” EDNT 1.80.
[6] A interpretação de Romanos 11.26, é claro, é ferozmente debatida. Para uma defesa mais detalhada, veja Schreiner, Romans 611–23.
[7] Eu argumentarei abaixo que há também um sentido no qual a eleição corporativa e individual são separáveis no AT, mas mesmo neste exemplo o remanescente salvo necessariamente envolve indivíduos.
[8] Peter O’Brien corretamente diz: “As ideia de eleição e predestinação são elementos críticos na estrutura teológica do apóstolo. Embora a terminologia não seja usada frequentemente, quando ela aparece está originalmente conectada com outras ideias fundamentais tais como o chamado de Deus, vontade, propósito e conselho.” Veja Peter O’Brien, “Was Paul a Covenantal Nomist,” in Justification and Variegated Nomism. Volume II: The Paradoxes of Paul (ed. D. A. Carson, P. T. O’Brien, and M. A. Seifrid; Grand Rapids: Baker, 2004) 257.
[9] Veja João 6.51.
[10] Frequentemente tem sido notado que João foca em indivíduos em seu evangelho. Dificilmente funcionará aqui dizer que os indivíduos aqui significam grupos corporativos!
[11] A única saída parece ser o universalismo, mas João claramente rejeita o universalismo, antecipando um julgamento final no qual alguns serão excluídos da vida eterna (cf. João 3.36; 5.28-29)
[12] A tradução aqui é a minha mesma.
[13] Ainda que alguém não aceite o meu argumento particular aqui, as outras falhas no argumento de Abasciano permanecem.
[14] Paul K. Jewett, Infant Baptism and the Covenant of Grace (Grand Rapids: Eerdmans, 1978).
[15] Abasciano poderia afirmar que meu argumento falha uma vez que alguns na comunidade da nova aliança apostatam. Mas eu argumentaria que nenhum daqueles que são verdadeiramente eleitos cometem apostasia. Veja Thomas R. Schreiner and Ardel B. Caneday, The Race Set Before Us: A Biblical Theology of Perseverance and Assurance (Downers Grove: InterVarsity, 2001).
[16] O verbo “tirar” (laqach) é usado outras vezes de Deus tirando um indivíduo com a noção de escolher ou selecionar aquela pessoa (Abraão [Gn 24.7]; Amós [7.15]; Zorobabel [Ag 2.23]; Davi [2 Sm 7.8; 1 Cr 17.7; Sl 78.70]; Nabucodonozor [Jr 43.10]. O verbo também é usado de Deus tomando ou escolhendo os levitas (Nm 3.12; 8.16, 18). A maior parte destes exemplos, é claro, não refere-se a Deus escolhendo alguém para a salvação. Se tal noção estiver em vista deve ser determinado pelo contexto. Eu argumentaria, porém, que a salvação está em vista em ambos os versos onde Abraão é dito ser tirado.
[17] Meu artigo diz mais brevemente (e provavelmente não tão bem) o que Piper argumenta em sua obra em detalhes. Veja John Piper, The Justification of God: An Exegetical and Theological Study of Romans 9:1–23 (2d ed.; Grand Rapids: Baker, 1993).
[18] A propósito, eu penso que o evento é tanto corporativo quanto individual no AT, também (testemunha de que Josué e Calebe são exceções); mas eu estou usando as categorias de Abasciano aqui.
[19] Abasciano acha que eu contradigo meu ponto em Rm 9.30–10.21 uma vez que o Israel corporativo não é coextensivo com aqueles em Israel que creram. Daí, o corporativo e o individual não estão entrelaçados na forma como eu afirmo. Eu observaria em resposta que a comunidade do pacto no AT difere da igreja do NT. Todos os membros da comunidade do pacto no NT são crentes, e daí o corporativo e o individual são coextensivos. Isto não é verdadeiro da comunidade do pacto do AT, pois ela era uma entidade política e teocrática e uma comunidade da fé. Nem todos aqueles que pertenciam a primeira participavam na última.
[20] Atos 2.23 contém a própria tensão que Abasciano rejeita. A morte de Jesus foi predestinada por Deus. E ainda que Deus acuse aqueles que o mataram como culpados (cf. Atos 4.27-28). Aparentemente, os escritores bíblicos não viam uma contradição onde Abasciano vê.
[21] Para uma explicação clara da doutrina da trindade, veja Robert Letham, The Holy Trinity in
Scripture, History, Theology, and Worship (Phillipsburg, NJ: P & R, 2004).
[22] See D. A. Carson, Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension (Atlanta: John Knox, 1981).