terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A BASE DO ARREPENDIMENTO CONTRAFACTUAL


Por Greg Welty

            Um comentário sobre “Corazim, Betsaida e Molinismo”.

            Em Atos 7, Estêvão prega uma narrativa que culmina no testemunhos profético a respeito da “vinda do Justo” (v.52).

            Em Atos 8.1 Saulo estava presente para ouvir isto, aprovando a execução de Estêvão. Sem dúvida Saulo estava familiarizado com outra pregação cristã também, quando ele arrastou cristãos para a prisão.

            Em Atos 8.26-40, o eunuco Etíope é convertido através de um simples estudo bíblico.

            Mas em Atos 9 Paulo é convertido por meios que vão além de simples estudo da Bíblia. Deus teve que realizar milagres físicos, incluindo ver “luz do céu”, ouvir a voz de Jesus, ser atingido pela cegueira e ficar curado daquela cegueira.

            Com base nesta narrativa, nós poderíamos estabelecer uma verdade hipotética que faz um paralelo com a repreensão de Jesus aos judeus incrédulos em Mt 11.21, que ilustra assimetria de dureza de coração e culpa (fundamentando assim a repreensão), mas acomoda a suficiência da graça convertedora de Deus para cada conversão. Jesus poderia ter dito a Saulo em Atos 9:

“Ai de ti, Saulo! Pois se o estudo da Bíblia que foi apresentado a você por Estêvão em Atos 7 tivesse sido apresentado aos etíopes pagãos, eles teriam se arrependido.”

            Fato: o estudo da Bíblia não tinha convertido Saulo até aquele ponto, embora ele certamente estivesse exposto a ele (em sua educação e experiência recente).

            Fato: como um judeu incrédulo que rejeitava a pregação cristã, Saulo é, portanto, mais culpado do que o eunuco que aceitou a pregação cristã, e Jesus estaria certo em dizer assim. Refletindo sobre sua experiência de conversão, Saulo confessa que ele era o “pior” dos pecadores, e para ele Jesus foi gracioso para “mostrar sua completa longanimidade como um exemplo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (I Tm 1.15-16).

            Hipótese: Tanto o eunuco quanto Saulo foram convertidos pela graça irresistível de Deus. A influência graciosa é diferente em ambos os casos porque a obstinação é diferente em ambos os casos. Mas em cada caso, a graça de Deus é suficiente para garantir o resultado.

            Fato: no cenário hipotético apresentado acima, as mesmas “obras poderosas” são referentes à: influência graciosa de Deus por meio de um mero estudo da Bíblia.

            Fato: no cenário hipotético apresentado acima, as mesmas “obras poderosas” que falham em converter Saulo tem êxito na conversão do eunuco.

            Conclusão: os meios necessários para afinal converter Saulo são maiores do que os meios necessários para converter o eunuco (preservando assim assimetria de culpa e maldade), mas em cada caso a graça de Deus é suficiente para garantir o resultado salvífico (preservando assim a graça irresistível). Em resumo, o estudo da Bíblia que provou irresistível no contexto do eunuco era resistível no contexto de Saulo, e assim meios mais fortes eram necessários (e no caso de Saulo, eles foram graciosamente fornecidos).

            De forma similar, quando Jesus diz aos judeus incrédulos dos seus dias:

“Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza.” (Mt 11.21)

            Jesus não precisa ser tomado como implicando: “Corazim, vocês são tão maus, que a graça irresistível que eu poderia ter usado para converter Tiro e Sidom não funcionou com vocês!” Nesta visão, “graça irresistível” é resistível em alguns contextos (Corazim), mas não em outros (Tiro e Sidom). Isto na verdade parece contraditório. Mas em vez disso Jesus poder ser tomado como implicando: “Corazim, vocês são tão maus que minhas obras ponderosas que seriam irresistíveis para Tiro e Sidom se mostram resistíveis para vocês”.

            Deus usa meios mais fortes para pecadores mais fortes, porque eles são pecadores mais fortes. O fato de que meios menores teriam êxito com outros, enquanto eles falham conosco, seria uma reflexão sobre nós. Se você não pode ser convertido através de um estudo da Bíblia, mas apenas através de vozes miraculosas e cegueira, a graça de Deus estará disposta (como sempre). Mas então você deveria louvar a Deus que ele perseverou com você no meio de sua maior depravação e ignorância espiritual insensível (como Paulo em I Timóteo 1.15-16).

            Tudo isto nos ajuda a responder uma objeção a doutrina calvinista da graça irresistível, citada no link acima:

“Mas há outro problema com respeito às pessoas de Tiro. Nem as pessoas de Corazim e Tiro na verdade se arrependeram. No Calvinismo, nós poderíamos seguramente concluir que nem foi dada a elas graça irresistível, pois se tivesse sido dada a elas graça irresistível, elas se arrependeriam. Mas o verso nos dá o fato contrário: o povo de Tiro teria se arrependido, dadas as mesmas obras poderosas. Então como é que Tiro teria se arrependido sem graça irresistível? No Calvinismo, nós somos deixados com a contradição de que a graça irresistível tanto é e não é necessária para o arrependimento.”

            Não é que “Tiro teria se arrependido sem graça irresistível”. É que as obras que teriam sido irresistíveis no contexto de Tiro são resistíveis no contexto de Corazim. Assim o Ai pronunciado sobre Corazim e outras cidades nos dias de Jesus, por rejeitar a pregação e os milagres de Jesus.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino



           

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SE EU APENAS TIVESSE SABIDO



Por Steve Hays

            Teístas do livre arbítrio frequentemente fazem uma distinção entre “determinar” (ou causar) o mal e permitir o mal. Eles considerem a última como exonerativa.

            Suponha que eu compre um conjunto de facas como um presente de casamento. Alguns anos depois, o filho de 5 anos do casal trespassa seu irmão de 3 anos até a morte com uma das facas. Se eu não tivesse dado ao casal este presente de casamento esta tragédia não teria acontecido. Eu sou culpável?

            Nós diríamos que não, porque eu não tinha ideia que meu presente seria usado daquela forma. Se eu soubesse eu teria lhes dado um presente de casamento diferente (inofensivo).

            Mas suponha que, quando eu estava na loja de talheres, procurando um presente de casamento, eu tivesse uma premonição de que se eu desse ao casal um conjunto de facas como um presente de casamento, aquela seria a consequência. Então eu seria culpado?

            Presumivelmente, nós diríamos que sim. Dado o conhecimento antecipado, aquela tragédia era facilmente evitável, e não é como se minha escolha de comprar-lhes um presente de casamento diferente (inofensivo) violaria a liberdade libertária de ninguém, ou desestabilizaria a ordem natural.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino