segunda-feira, 20 de abril de 2015

TEÍSMO ABERTO E TEODICÉIA



Por Steve Hays

“De acordo com o teísmo aberto, Deus soberanamente decidiu criar um mundo com criaturas libertariamente livres, uma vez que não há (não haveria) contrafactuais de criaturas livres para Deus conhecer e desde que, de acordo com os teístas abertos, a liberdade libertária é incompatível com o pré-conhecimento meticuloso, Deus não poderia saber com certeza antes do tempo que tipos de escolhas suas criaturas livres farão. Deus pareceria ser menos culpável por não impedir os males que ele não sabia antecipadamente que aconteceriam.”


            I) Nas questões humanas há situações em que a ignorância pode ser um fator atenuante ou justificativo. Mas isto não é um fato estabelecido.  

            Suponha que eu deixe a casa por uma hora para dar um passeio. Eu deixei meus filhos de 2 e 3 anos sozinhos com um aquecedor funcionando. Na minha ausência a casa pega fogo e eles queimam até a morte.

            Eu não sabia com antecedência que isto aconteceria. Mas este não é o ponto. Foi imprudente da minha parte expô-los ao risco. Foi errado da minha parte arriscar à custa deles. Na verdade, ainda que a casa não tivesse pegado fogo, eu ainda seria negligente, ainda seria culpado por pô-los em perigo.

            II) Isto pressupõe que Deus é, na verdade, ignorante dos males futuros. Mas com certeza isto é exagerado, mesmo nas pressuposições teístas abertas. Suponha que o Deus teísta aberto não sabia 3 dias antecipadamente que o Titanic ia bater num iceberg e afundar. Talvez isto fosse contingente sobre um conjunto de escolhas humanas imprevisíveis.

            Mas o Deus teísta aberto ainda não sabia 3 horas antecipadamente que o Titanic ia bater num iceberg? Ele não podia nem mesmo antecipar 30 minutos com antecedência que o Titanic estava sobre um curso de colisão com o iceberg — estabelecida a trajetória? Quanto tempo de espera leva para desviar? 

            E ainda que isto não fosse uma “coisa certa”, não é de responsabilidade e prudente tomar precauções em caso de isso acontecer? Especialmente quando vidas inocentes estão em jogo? Se Deus não pode saber com certeza, isto não é mais uma razão para deixar-se uma margem generosa de erro?

            III) Do mesmo modo, o Deus teísta aberto não sabia que o furacão da categoria 4 estava fazendo um caminho mais curto para Galveston? O Deus teísta aberto não pode predizer quando e onde um furacão passará pelo menos como o National Weather Service?

            IV) Neste ponto um teísta aberto poderia contra-atacar que embora Deus possa antecipar alguns (todos?) os desastres naturais, Deus não pode intrometer-se para evitá-los. Para as escolhas humanas serem significativas, escolhas devem ter consequências previsíveis. Isto, por sua vez, requer um ambiente estável.

            Porém, esta réplica está sujeita a objeções múltiplas:

            V) Para começar, o teísta aberto está certamente mudando de argumento. Este argumento admite que a ignorância divina é uma teodicéia inadequada.

            VI) Uma objeção que os teístas abertos levantam para o Calvinismo é que se cada evento é predestinado, então a oração petitória é ociosa, pois o futuro não pode ser mudado.

            (É claro, no Calvinismo, o que não pode ser mudado inclui a oração respondida).

            Se, porém, Deus não pode desestabilizar a ordem natural ao anular a configuração padrão, então a teodiceia teísta aberta nega a oração teísta aberta.

            VII) Além do mais, o argumento falha. Se escolhas devem ter consequências previsíveis, então as escolhas requerem consentimento informado: permissão garantida no conhecimento dos riscos e consequências prováveis.

            Se os moradores de Galveston tivessem sabido que um furacão catastrófico estava indo bater na torre deles em 8 de Setembro de 1990, muitos deles evacuariam a frente da tempestade. E ainda que alguns teimosamente permanecessem atrás, esta seria a escolha informada deles.

            Porém, o Deus teísta aberto reteu aquela informação. Eles não tiveram nenhum aviso prévio, para fazer os preparativos.

            Isto não exige de Deus desviar o furacão, mas simplesmente advertir os moradores. A ordem natural permanece inviolável.

            Suponha que eu sofra de dores de cabeça. Eu consulto um neurologista. Ele diz que eu estou com sorte. Ele pode prescrever a medicação que alivie a dor de cabeça.

            Porém, ele não me diz que a medicação tem um efeito colateral: ele causa câncer no cérebro.
            Embora eu escolhi tomar a medicação, me foi negada a oportunidade de fazer uma escolha informada. Se eu tivesse sabido do efeito colateral, eu não teria tomado a medicação. O neurologista foi culpado por deixar de me avisar.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino


sexta-feira, 17 de abril de 2015

RESPONSABILIDADE VICÁRIA



Por Steve Hays

            I) Uma das objeções ao calvinismo é a do pecado original  — especialmente a imputação do pecado de Adão. Como é justo para nós sermos responsabilizados pelas ações de outro? Nós não tivemos parte em suas ações. Nós não consentimos em suas ações.

            Estritamente falando, isto não é um problema para o calvinismo. Assumindo, para o bem do argumento, que isto é problemático, este é um problema para a escritura. É apenas um problema para o Calvinismo na medida em que o Calvinismo é uma das poucas tradições teológicas que permanecem vivas que ainda toma seriamente o que a escritura diz sobre o pecado original. Então isto é menos sobre Calvinismo do que inspiração e autoridade da escritura.

            II) Dito isto, vamos considerar a objeção em seus próprios termos. Para facilitar a consulta, vamos chamar isto de princípio da responsabilidade vicária.

            Certamente há muitas situações, ou tipos de situações, onde a responsabilidade vicária seria injusta. Na verdade, a própria Bíblia considera a responsabilidade vicária como injusta em algumas situações (Ex. Dt 24.16).

            III) Mas este é um princípio universal? Vamos considerar um caso hipotético. Uma esposa tem um filho com outro homem no curso de um caso ilícito. Não há, porém, nenhuma razão imediata para seu marido suspeitar que a criança não é dele.

            10 anos depois, o menino adoece e submete-se a alguns testes que incidentalmente revelam o fato de que o garoto não é o filho biológico do marido.

            A esposa, percebendo que seu marido nunca a verá da mesma forma, deixa seu marido pelo homem que verdadeiramente ama. E ela deixa seu filho sob os cuidados e custódia de seu ex-marido. Ela nunca quis o filho.

            Embora isto seja hipotético, há exemplos da vida real que correspondem a este tipo de situação.

            Quais são a responsabilidades do marido nesta situação? Uma opção é deixar o garoto com a mãe e o pai biológicos deste. Conduzir o garoto para onde quer que eles estejam vivendo, e entregá-lo para eles.

            Com certeza, porém, é tarde demais para isto. Por 10 anos, o marido foi o único pai que o garoto conheceu. Seu pai biológico não o conhece ou se importa com ele. E sua mãe não se importa com ele.

            Então o garoto precisa do marido para continuar a ser o pai para ele. Seria prejudicial ao seu desenvolvimento psicológico cortá-lo daquele relacionamento e confiá-lo às mãos dos dois adultos indiferentes.

            Eis aqui um caso onde o indivíduo torna-se responsável pelas consequências do delito de outra pessoa. E isto é apesar do fato de que o indivíduo foi injustiçado.

            Nós poderíamos citar exemplos parecidos. Tome uma criança abandonada. Uma mãe desesperada coloca seu recém-nascido na porta de uma família próspera, esperando que eles cuidem da criança. Não deveria ser responsabilidade deles. Mas agora que isto foi confiado a eles, é dever deles enfrentar o desafio.

            Como tal, eu não acho que a responsabilidade vicária seja injusta em princípio. É fácil o suficiente apresentar contraexemplos nos quais isto parece ser uma obrigação moral.

            É claro, estes exemplos apelam à intuição. Algumas pessoas poderiam rejeitar a intuição. Porém, isto afeta ambos os lados igualmente. Pois a objeção ao pecado original é intuitiva também.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino