quinta-feira, 26 de junho de 2014

O MOLINISMO E O CONHECIMENTO MÉDIO



           
             O jesuíta Luis de Molina, no final do século XVI, propôs uma reconciliação entre as doutrinas do livre-arbítrio e da predestinação. Essa reconciliação tem sido defendida atualmente por um erudito evangélico, William Lane Craig.[1] Segundo esta posição, Deus sabe não apenas todas as coisas que teoricamente poderiam acontecer, mas ele também sabe tudo que aconteceria em todo e qualquer mundo possível. Este conhecimento é o seu conhecimento médio. Ele sabe todas as coisas que são necessárias e todas as possibilidades contingentes. Além disso, Molina afirmava que as ações das pessoas são livres e indeterminadas, de modo que as pessoas podem escolher o contrario do que escolheriam. Mas ele também disse que Deus determina tudo o que acontece. Afinal, Deus sabe quais serão as escolhas livres de todas as pessoas, em quaisquer circunstâncias que poderiam existir, em todos os mundos possíveis.

            Esta seria a solução do problema, segundo Craig. Deus, conhecendo tudo o que aconteceria, em todos os mundos possíveis, escolheu um destes mundos e o criou. Assim, por exemplo, sabendo que em um mundo x, Judas trairia Jesus livremente, Deus criou o tal mundo x para realizar seus propósitos. Portanto, Judas agiu livremente, mas o fato de que esta realidade foi realizada, e não alguma outra realidade alternativa, ocorre porque Deus resolveu criar este mundo, e não algum outro. Neste esquema, tanto a liberdade quanto à soberania de Deus são preservadas.

            Temos de confessar que existe respaldo bíblico em favor desta noção. Em Mateus 11.23, Jesus disse que se Sodoma tivesse visto os milagre feitos em Cafarnaum, ela não teria sido destruída, insinuando que ela se arrependeria dos seus pecados. Isto é um exemplo claro do chamado conhecimento médio da parte de Deus. Não negamos este fato. Mas a questão é a aplicação do mesmo. Segundo Craig, o arminianismo e o calvinismo podem ser reconciliados, assim como o problema do mal ser resolvido. Mas a coisa é realmente assim tão fácil? Em nossa opinião, o conhecimento médio de Deus não resolve estes problemas.
             Primeiro, esta posição não resolve o problema do mal. Pelo contrario, o problema se torna mais complicado à luz deste fato. Porque, se Deus conhecesse todos os mundos possíveis, com certeza deveria ter existido pelo menos um único mundo possível, no qual a queda dos anjos e da raça humana não aconteceu — e o mal não entrou na criação. Não seria possível pelo menos um mundo no qual Adão e Eva não comeram o fruto proibido?[2] Mas, se tal mundo fosse possível, e Deus não resolveu cria-lo, então a teoria do conhecimento médio não exime Deus da culpa pela existência do mal. Em conclusão, a realidade do conhecimento médio é irrelevante ao problema.

            Em segundo lugar, há o problema da independência ontológica destes mundos possíveis de Deus. Se as ações das criaturas nestes mundos são autônomas, no sentido de liberdade indeterminada, como ensinada pelos atuais arminianos, então estes mundos são o que eles são por causa da atividade criativa das criaturas e não de Deus. É como se Deus, ao criar o mundo, fosse numa loja de mundos possíveis e, olhando as estantes, tivesse encontrado um mundo de que gostava, e a partir dai o tomasse real. Mas esses tais mundos possíveis, de onde vieram? Não são criados por Deus, mesmo como ideias, mas existiam como possibilidade, independentes de Deus, como se fossem ideias platônicas. Assim, esta visão reduz Deus a uma divindade, mais parecida com o demiurgo de Platão, que criou o mundo segundo padrões abstratos que já preexistiam. Assim, a distinção entre o Criador e a criação é negada de forma sutil. Deus não é mais auto-contido, mas, ao contrario, ele estaria contido no contexto do ser impessoal, que abrange as ideias abstratas dos mundos possíveis. A única maneira de escapar deste dilema é afirmar que até os mundos possíveis são determinados pelo decreto de Deus. Então, Deus criou este mundo, escolhendo o mundo dentre as possibilidades que ele determinou. Assim, as ações das criaturas nos mundos possíveis não poderiam ser livres, no sentido que os arminianos querem, mas sim no sentido que o pensamento reformado afirma. Portanto, esta posição também não serve de ajuda para o arminiano.

            Em terceiro lugar, o conceito do conhecimento médio não consegue tornar coerente a noção do livre-arbítrio, no sentido arminiano dessa noção. Em quaisquer mundos imagináveis, uma ação totalmente indeterminada (ou uma escolha sem causa) é algo irracional, sendo o resultado de puro acaso. Como discutimos acima, tais escolhas são inerentemente incognoscíveis de antemão. A noção do conhecimento médio não explica como é que tais coisas, de repente, podem ser previstas por Deus, mas ainda permanecerem indeterminadas.

            O problema final seria que, na passagem de Mateus 11.20-30, se Deus sabia que eles se arrependeriam, mas não fez os milagres necessários lá, por que ele não escolheu um mundo em que estes milagres fossem feitos — e os habitantes de Sodoma fossem salvos? O fato de Deus escolher não se revelar só ressalta a liberdade da graça de Deus. Devemos notar que, no restante desta passagem, o evangelista afirma claramente a soberania de Deus na salvação de pecadores (11.25-27) e o chamado para que os cansados e sobrecarregados venham a Jesus — e encontrem alívio, recebendo o jugo suave e o fardo leve (11.28-30). Então, longe de apoiar o molinismo, esta passagem só realça ainda mais a liberdade e soberania divina. O texto mostra que até o conhecimento médio de Deus age de acordo com sua soberania e liberdade. Por estes motivos, não podemos aceitar o molinismo como solução do problema.[3]

Fonte: Teologia sistemática, Franklin Ferreira & Allan Myatt, p. 340-341.


[1] Cf. a discussão em J. P. Moreland e William Lane Craig, Filosofa e cosmovisão crista, p. 634-637, 681-686.
[2] Alvin Plantinga afirma que não seria possível para Deus criar um mundo sem o mal, uma vez que as pessoas são dotadas de livre-arbitrio. Mesmo assim, se Deus resolveu criar o mundo, e se ele também conheceu de antemão que este mundo teria o mal, o dilema não é solucionado pela introdução do livre-arbítrio. Deus ainda poderia ter evitado a existência do mal, optando por não criar nenhum mundo. Cf. Alvin Plantinga, God, freedom and evil, p. 45-53 e Gordon Clark, Religion, reason andrevelation, capitulo 5.
[3] 157Cf. a discussao de J. A. Crabtree, “Does middle knowledge solve the problem of divine sovereignty”. In: Thomas R. Schreiner e Bruce A. Ware (eds), The grace o f God, The bondage o f the will, v. 2.

terça-feira, 24 de junho de 2014

DESCOBRINDO A BONDADE DE DEUS



Por Steve Hays

“Por que confiar ser a escritura uma revelação verdadeira e guia se Deus não é bom em um sentido análogo às nossas melhores ideias de bondade?”


“Você sacrifica não apenas seu filho, mas também suas intuições morais em nome da adoração de um Deus cuja “bondade”está totalmente em desacordo com o significado natural deste termo”.


            I) Walls e Olson habitualmente fazem declarações como esta. Faz parte de seus estereótipos pelo arminianismo. Eles começam com suas pré-concepções de bondade, que eles equiparam com o “entendimento” natural de bondade. Eles não citam nenhum dado para sustentar suas afirmações. Antes, é simplesmente um exercício circular em definir “bondade” por referência ao arminianismo.

            II) Mas há outra falha na metodologia deles. A própria existência do mal deveria afetar nosso entendimento do que Deus está disposto a fazer ou permitir. Necessariamente, os tipos de males que nós observamos no mundo ou vemos narrados na escritura deveriam informar nosso entendimento do que Deus está disposto a fazer ou permitir.

            Portanto, esta metodologia de cima pra baixo, na qual os arminianos começam com abstrações piedosas, com sua ideia preconcebida do que um Deus bom toleraria, é um postulado artificial que falha em conectar com os fatos dos quais se constrói o fundamento. O que um Deus bom faria, permitiria ou evitaria é algo que nós devemos aprender a partir da revelação e da experiência. Isto é algo que nós descobrimos, não algo que nós intuímos.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/06/discovering-gods-goodness.html

domingo, 22 de junho de 2014

ARMÍNIO E LEIBNIZ



Por Steve Hays


“Finalmente, se eu não posso aceitar que este é o melhor dos mundos possíveis e com isto a crença de que até mesmo o Holocausto foi “para o melhor”, então logicamente eu não posso aceitar que Deus planeja, ordena e governa tudo no sentido que Calvino quer dizer como fez Edwards e a maioria dos representantes do “neo calvinismo” hoje.”

            Olson parece estar levantando uma questão geral, e não simplesmente uma objeção ao calvinismo em particular. Ele parece estar dizendo que um mundo contendo o Holocausto não pode ser o melhor mundo possível.

            Agora, embora seu post esteja alvejando o calvinismo, seu princípio levanta questões correspondentes sobre o arminianismo. De um ponto de vista arminiano, ele acredita que este mundo é o melhor mundo possível? Ele parece pensar que a existência do Holocausto torna esta contenção absurda. 

            Mas se há mundos possíveis melhores, então por que o Deus arminiano não fez um dos melhores mundos possíveis em vez do nosso mundo, que é pior, ou talvez até mesmo um dos piores?

            Ele dirá que Deus foi constrangido pelo livre arbítrio humano? Ainda que ele pense que a liberdade humana limita o tipo de mundo que Deus pode fazer, então ele não está comprometido com a proposição de que este é o melhor mundo que Deus poderia fazer? Dos mundos disponíveis, que vão do melhor para o pior, não havia mundo melhor que Deus pudesse fazer dadas as restrições impostas no campo de ação de Deus pelo livre arbítrio humano.

            No mínimo, então, tem que dizer que um mundo contendo o Holocausto é o melhor praticamente mundo possível. 

            Por melhor mundo possível, ele quer dizer o que é logicamente possível ou na realidade possível? Tenha em mente que como um crítico do molinismo, Olson não pode valer-se de si mesmo da distinção possível/viável.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/06/leibniz-and-arminius.html

quinta-feira, 19 de junho de 2014

DEUS E AUSCHWITZ: COMENTÁRIO DE STEVE HAYS SOBRE “O MELHOR DOS MUNDOS POSSÍVEIS” DE ROGER OLSON

               Eu farei um comentário sobre o post de Roger Olson:

http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2014/06/is-this-the-best-of-all-possible-worlds-what-i-would-think-if-i-were-a-calvinist/

 

“A maioria dos calvinistas que eu conheço acreditam em providência meticulosa.” 

 

            De acordo.

 

“Recentemente eu postei um ensaio aqui no qual eu falei sobre a minha propensão de ver o resultado lógico de tudo.”

 

            Sua propensão o desaponta toda vez que ela vem para ver o resultado lógico do arminianismo.

 

“Nós não deveríamos crer em ideias cujo bem e as consequências são inacreditáveis ou objetáveis (para nós mesmos). Em outras palavras, se ideia A leva inexoravelmente, por força da lógica, à ideia B e a ideia B é algo na qual eu não acredito, eu não deveria acreditar em A também.”

            E quanto às verdades reveladas? Se Deus revela algo para nós cujo bem e as consequências necessárias são objetáveis para nós, isto significa que nós deveríamos rejeitar a verdade revelada? Se ela leva a algo nos qual nós não acreditamos, então nós deveríamos realinhar nossas crenças para combinar à realidade. 

“Porém, o ponto que eu quero tratar aqui é que eu acredito que o determinismo divino e a providencia meticulosa, a ideia A de que Deus planeja, ordena e governa tudo sem exceção, leva inexoravelmente pela força da lógica à ideia B de que este é o melhor dos mundos possíveis.”

            Dizer que isto leva àquela conclusão lógica não começa a mostrar que isto leva àquela conclusão lógica. Onde está o argumento lógico para esta conclusão?

“A única questão que eu estou levantando aqui é se um Deus que é perfeitamente bom, onipotente e todo-determinante planejaria, ordenaria e governaria nada menos ou a não ser o melhor mundo possível. Eu não posso imaginar que ele o faria tudo isso.” 

I) Dizer que ele não pode “imaginar” não é um argumento lógico.

II) Ele parece estar sugerindo que se Deus é bom, então deve haver paridade entre a bondade de Deus e a bondade do mundo. O mundo deve ser tão bom quanto Deus. Mas nenhuma criatura pode ser tão bom (isto é, excelente) quanto Deus.

            Um problema pode ser o equívoco no significado de “bondade”. Ele quer dizer bondade moral ou excelência?

“Se este mundo é o melhor mundo a caminho do melhor de todos os mundos possíveis, então ele é, por ora, o melhor mundo possível.” 

            Isto é simplista. Os melhores meios para um fim não fazem os meios bons em si mesmo. Tome amputação para prevenir a morte por gangrena. 

“Eu simplesmente não entendo por que as pessoas que acreditam que Deus planeja, ordena e governa tudo também não acredita que este é o melhor de todos os mundos possíveis. Eu penso que eles deveriam acreditar.”

            Uma razão porque eu não creio nisso é que Olson ainda tem que dar um argumento de apoio para a sua afirmação. Em seu post, ele nunca chega a fazer um argumento lógico para o porquê, dado o calvinismo, este mundo deve ser o melhor mundo possível. Ele continua afirmando o que ele precisa provar.

“Eu posso apenas atribuir aquilo que eles frequentemente não fazem também: (1) ausência de lógica no pensamento deles ou (2) medo de ter que explicar como este é o melhor de todos os mundos possíveis à luz do holocausto e eventos como este.”

            É divertido ver o abismo aberto entre o orgulho intelectual de Olson e seu desempenho intelectual. Ele faz afirmações orgulhosas sobre sua perspicácia lógica, e faz comentários humilhantes sobre seus oponentes calvinistas, no entanto ele falha em demonstrar sua suposição.

“Eu concordo com o teólogo que disse que nenhuma teologia é digna da crença que não pode ser afirmada nos portões de Auschwitz. É preciso coragem para dizer que Deus planejou, ordenou e governou o holocausto. Eu admiro e respeito aqueles calvinistas (e outros deterministas) que creem nisso- pelo rigor e coragem deles.”

            Sim, Deus “planejou, ordenou e governou o holocausto, assim como ele “planejou, ordenou e governou” o dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o exílio babilônico e a queda de Jerusalém (70 DC).

“O problema que imediatamente surge é que se este é o melhor de todos os mundos possíveis então nada pode realmente ser irredutivelmente mal. Se este é o melhor de todos os mundos possíveis então eu devo dizer mesmo do holocausto ‘é uma parte necessária do bem maior.’ Então eu não posso considerar isto verdadeiramente mal. Eu teria que redefinir “mal” para longe do que eu e a maioria das pessoas queremos dizer com este termo.”

 I) Você simplesmente distingue entre se algo é bom em si mesmo e se ele pode ter consequências benéficas mais tarde. Por exemplo, não é bom ser congenitamente cego, mas neste caso, isto teve bons resultados: “E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus.” 

            De modo semelhante, a morte de Lázaro não foi boa em si mesma, mas ela foi uma fonte do bem: “Jesus, porém, ao ouvir isto, disse: Esta enfermidade não é para a morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.”

II) Desde que Olson falhou em lançar seu ônus da prova, não há nada mais que eu realmente precise dizer. Não é minha obrigação refutar um argumento não existente. Mas vamos examinar sua ilustração:

            Por que o Deus arminiano permitiu o holocausto? Afinal de contas, o Deus arminiano tinha o poder de evitá-lo. Então não está o arminiano comprometido a dizer que Deus permitiu o Holocausto para o melhor? Presumivelmente, um arminiano justificará a não intervenção de Deus nos fundamentos de que seria ainda pior para Deus prevenir o holocausto do que permitir o holocausto. Teria sido melhor para Deus intervir, mas ele falhou em fazer isso, então em qual sentido o Deus arminiano é “perfeitamente bom”?

            Então, como Olson escapa da lógica de sua própria estrutura?

III) Olson está assumindo que há um mundo possível melhor para o Deus calvinista predestinar. Mas por que nós deveríamos assumir tal coisa? Tome o holocausto. Um mundo alternativo no qual o holocausto nunca acontecesse é melhor do que o nosso? Melhor em que sentido? Melhor em todos os aspectos?

             Para começar, um mundo no qual o holocausto nunca acontecesse teria um passado e futuro diferentes. As condições históricas levando ao holocausto não existiriam. E as consequências históricas do holocausto não existiriam. 

            No entanto, entre outras coisas, isto requer a eliminação de muitas pessoas do passado e a substituição delas por um conjunto diferente de pessoas. Do mesmo modo, isto requer a eliminação de todas as pessoas que nasceram como um resultado do holocausto. De um modo, isto seria um tipo diferente de holocausto.

            Isto seria melhor para as pessoas que nunca existiram neste mundo alternativo? E se algumas delas estivessem indo para o céu? Ao criar o mundo alternativo, Deus as priva desta bênção incomparável.

            Alguns bens resultam de um mundo onde o Holocausto ocorreu que nunca resultaria sem o holocausto. Então um mundo no qual o holocausto ocorreu é melhor em alguns aspectos, porém pior do que outros. Melhor para algumas pessoas, mas pior para outras.

            Há até mesmo muitos judeus que se beneficiam do holocausto. Há judeus nascidos como um resultado do Holocausto que nunca existiriam à parte daquele evento terrível. Por exemplo, alguns sobreviventes do Holocausto se casaram com pessoas que eles nunca teriam a ocasião de conhecer em um mundo sem as deslocações do Holocausto.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/06/god-and-auschwitz.html