segunda-feira, 26 de maio de 2014

A PROVIDÊNCIA DE DEUS E A MALDADE HUMANA E DEMONÍACA



Por Franklin Ferreira & Alan Myatt

             Deus é soberano sobre a impiedade e a ação satânica? Calvino demonstra que a relação de Deus com os ímpios é de eficiência, não mera permissão. O reformador demonstra a falsa distinção entre “permitir” e “fazer”. Para Calvino, esta distinção foi inventada para tentar preservar a justiça de Deus. Esta distinção que às vezes é proposta nos leva a conclusão de que há áreas não alcançadas pelo conhecimento e controle de Deus, quando ele mesmo diz o contrario, como no caso do cego de nascença (Jo 9.3). Segundo o Salmo 115.3, todos os ímpios estão debaixo do poder e da direção de Deus, e mesmo os maus intentos são usados para realizar o bem que ele intenta fazer.[1]

            Devemos mencionar que Calvino apoia sua declaração com fartos exemplos das Escrituras: Jó reconheceu que foi de Deus, não do diabo, que procedeu o que veio sobre ele (cf. Jó 1.21); a cegueira e insanidade de Acabe (l Rs 22.20,22); os apóstolos reconhecendo que Pilatos e os judeus fizeram o que Deus decretou (At 2.23 cf 4.28; 3.18); Absalão, mesmo cometendo incesto, cumpria a obra de Deus (2Sm 16.22; 12.12); e mesmo a crueldade dos caldeus sobre Judá procede de Deus, segundo Jeremias (Jr 1.15; 7.14; 50.25 etc.) tudo isto procede do Senhor.[2] Em síntese, os homens maus e o diabo foram os instrumentos, mas Deus é o autor. “Portanto, seja o que for que os homens maquinem, ou o próprio Satanás, entretanto Deus retém o timão, de sorte que lhes dirija os propósitos no sentido de executarem seus juízos”.[3] Ele escreveu:

Aqueles que são ao menos medianamente versados nas Escrituras veem que, para alcançar a brevidade, menciono apenas uns poucos exemplos dentre muitos, dos quais, no entanto, se faz mais do que evidente que dizem coisas sem nexo e pronunciam absurdos esses que no lugar da providencia de Deus colocam a permissão absoluta, como se, assentado em uma guarita, aguardasse ele eventos fortuitos, e assim do arbítrio dos homens dependessem seus juízos.[4]

            Os agentes ímpios são, então, muitas vezes varas da ira de Deus, como Davi mesmo reconhece (2 Sm 16.40). Esta eficiência da providencia é manifestada na mente e no coração de todos os homens:

Aquilo que Salomão diz a respeito do coração do rei [Pv 21.1], isto é, que está na mão do Senhor que o dirige para onde quiser, e igualmente verdadeiro acerca dos corações de todos os homens. Até os conceitos de nossa mente são dirigidos pelo poder sigiloso de Deus para cumprir seus propósitos.[5]

            E isto não por mera permissão divina, mas pela efetiva ação do Espírito, que expressamente declara que a cegueira e a loucura são infligidas sobre os ímpios pelo reto juízo de Deus (Lv 26.36; I Sm 26.12; Dt 28.21; Rm 1.28; Ex 14.17; Rm 1.20-24).

            Isto é notável em relação ao endurecimento do coração de Faraó. Para Calvino, é absurdo dizer que o endurecimento partiu de Faraó. É de Deus (Ex 4.21 cf 9.I2; 10.20,27; 11.10; 14.8) que procede o endurecimento. O impulso do endurecimento procede de Deus, por isto, diz-se que Faraó endureceu seu coração (Ex 8.15,32; 9.34). Frequentemente Deus usa, em seus atos, as intervenções de Satanás, de forma que, com seu impulso, o próprio Satanás execute seu papel ate onde este foi limitado. “Uma vez [que] se diz que a vontade de Deus é a causa de todas as coisas, a providencia é estatuída como moderatriz em todos os planos e ações dos homens, de sorte que não apenas comprove sua eficiência nos eleitos, que são regidos pelo Espírito Santo, mas ainda obrigue os réprobos à obediência”.[6] Mesmo os anjos apóstatas e todos os ímpios, no que lhes dizia respeito, fizeram aquilo que era contrário à vontade de Deus; mas, por causa da onipotência divina, era impossível para eles realizarem qualquer coisa contra esta mesma vontade. Ainda citando Calvino: “Pois, enquanto agem em oposição a vontade de Deus, ela é cumprida por eles (...). Um Deus bom não permitiria que o mal fosse feito, a não ser que um Deus onipotente pudesse transforma-lo em bem”.[7]
           
            Calvino encerra seu argumento afirmando que não podemos incriminar a Deus pelo fato de usar agentes ímpios em seus bondosos propósitos. Contra o ensino acima exposto surge uma objeção: se Deus não somente emprega a instrumentalidade dos ímpios, como também governa seus planos e paixões, porventura não seria Deus o autor do mal? Calvino responde com uma distinção de grande importância, entre a vontade de Deus e seu mandamento:

Devemos apegar-nos firmemente ao principio de que os ímpios, por cujo intermédio Deus realiza os seus justos julgamentos e decretos, não devem ser considerados inculpáveis, como se tivessem obedecido ao Seu mandamento, mandamento este que atrevida e deliberadamente quebram.[8]

Fonte: Teologia sistemática, Franklin Ferreira & Alan Myatt. p. 323-324.


[1] As institutas, 1.18.1.
[2] I08Cf. As institutas, 1.18.1. Nesta mesma seção, Calvino trata outros textos difíceis das Escrituras, e demonstra como eles jogam mais luz sobre este assunto, como no caso da secessão de Judá e Israel (l Rs 12. 15-20 cf. Os 8. 4; 13.11). Em suas palavras “já antes expliquei claramente como, em um mesmo ato, tanto se manifesta o delito do homem, quanto refulge a justiça de Deus”. Agostinho também e citado ao mostrar como a traição de Judas cumpre o propósito do Senhor, sem que ele seja o autor do mal.
[3] As institutas, 1.18.1.
[4] As institutas, 1.18.1.
[5] J. P. Wiles, op. cit., p. 102.
[6] As institutas, 1.18.3.
[7] J. P. Wiles, op. cit., p. 104.
[8] J. P. Wiles, op. cit., p. 104.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

UMA CRÍTICA AOS ARGUMENTOS WESLEYANOS A FAVOR DA GRAÇA PREVENIENTE (PARTE III)



Thomas Schreiner

            O terceiro argumento wesleyano a favor da graça preveniente é provavelmente o mais poderoso. Por que Deus daria ordens a menos que às pessoas fosse dada alguma habilidade de obedecê-las? Romanos 2.4 diz que a bondade de Deus tem a pretensão de conduzir as pessoas ao arrependimento. Isto não implica que as pessoas têm a habilidade de se arrepender se elas simplesmente escolherem fazer assim?

            Deveria ser reconhecido que a lógica wesleyana é coerente aqui, e ninguém pode ver por que os wesleyanos deduziriam habilidade humana a partir da transmissão de ordens. No entanto, embora a lógica deles seja impecável, não necessariamente segue-se que a conclusão deles seja verdadeira. Um argumento pode ser logicamente coerente e não se encaixar com o estado de coisas no mundo porque a resposta dada não é compreensiva. Colocando de outra forma, uma das premissas no argumento wesleyano não está de acordo com a realidade da vida como retratada nas escrituras. Eles estão incorretos em deduzir que Deus não daria ordens sem dar uma habilidade moral para obedecê-las. A distinção entre habilidade física e moral é crucial.[1] Por exemplo, os seres humanos são fisicamente capazes (na maioria dos casos) de subir degraus, mas eles são fisicamente incapazes de saltar sobre as casas. De uma forma semelhante, Deus dá ordens para incrédulos para que eles possam obedecer fisicamente; isto é, eles poderiam observar mandamentos de Deus, se eles desejassem assim fazê-lo. Os incrédulos são moralmente incapazes de guardar os mandamentos de Deus no sentido de que eles não têm desejo de obedecer todos os seus mandamentos. Deus ordena a todas as pessoas (Gl 3.10; Rm 1.18; 3.20) que elas obedeçam a suas leis perfeitamente, mas ninguém é moralmente capaz de fazer isso. Porque todas as pessoas nascem com um pecado natural herdado de Adão, eles inevitavelmente pecam. Embora as pessoas não possam moralmente obedecer as ordens de Deus, os autores bíblicos assumem que eles deveriam guardar os mandamentos de Deus. Eles deveriam guardar os mandamentos de Deus porque eles são santos e bons (Rm 7.12) e não são fisicamente impossíveis de guardar. As pessoas poderiam observar os mandamentos de Deus se elas quisessem fazer assim. A visão bíblica, porém, é que incrédulos como escravos do pecado não têm desejo de guardar a lei de Deus.[2]

            O estado de coisas que se obtém sob a lei permanece   quando Cristo vem. Isto é, todas as pessoas deveriam vir a Jesus a fim de ter vida (João 5.40). Jesus censura aqueles que não creem apesar de todas as suas obras (Mt 11.20-24), e ele convida todos a virem a ele (Mt 11.28-30). No entanto, ele também ensina que ninguém pode ir a ele senão trazido pelo pai (João 6.44), e somente aqueles a quem o pai e o filho se revelam irão conhecê-lo (Mt 11.25-27). Todas as pessoas são convocadas a crer em Jesus e são repreendidas por não crer. No entanto, as escrituras também ensinam que eles não têm habilidade moral para crer, e que a única forma pela qual eles crerão é se eles são dados pelo pai ao filho. Esta revelação não é concedida a todas as pessoas, mas apenas aos eleitos. Jesus ordena aos crentes serem perfeitos (Mt 5.48), mas a necessidade de perdão (Mt 6.14-15) demonstra que a perfeição é impossível de se atingir.

            O problema com o Wesleyanismo neste ponto é que ele é guiado pela lógica humana e racionalidade em vez de pelas escrituras. A visão deles de que os mandamentos não seriam dados às pessoas uma vez que elas não têm a habilidade moral de obedecê-los é certamente atrativa. Mas o nosso contra-argumento é que tal noção não é ensinada nas escrituras. A doutrina do pecado original e da inabilidade humana é uma ofensa á razão.[3] Isto não quer dizer que é irracional. A distinção entre habilidade física e moral percorre um longo caminho em direção à resolução das dificuldades. 

            O estilo deste texto (Rm 2.4) deveria ser tomado seriamente, pois nossas pressuposições não deveriam ser lidas dentro dele. É o caso que a bondade de Deus deveria levar as pessoas ao arrependimento.[4] A bondade de Deus não é uma charada, mas está profundamente presente naquilo que ele poupa as pessoas e não as destrói imediatamente pelos pecados delas. A bondade e paciência de Deus deveriam induzir as pessoas a buscá-lo e confessar seus pecados. Mas este texto não diz que as pessoas têm a habilidade moral de se arrepender e se voltar para Deus. Ele simplesmente diz que elas deveriam se arrepender e se voltar para ele. Wesleyanos leem dentro deste verso a sua teologia da graça preveniente, espremendo assim dele mais do que aquilo que ele realmente diz.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Chapter 9 in Still Sovereign. Thomas R. Schreiver and Bruce A. Ware, eds. Grand Rapids, Baker, 2000.



[1] Para uma recente explicação desta distinção que é um modelo de clareza veja David M Ciocchi, "Understanding Our Ability to Endure Temptation A Theological Watershed," JETS 35 (1992) 463-68.
[2] Deveria ser pontuado que Adão foi criado com ambas as habilidades física e moral para obedecer aos mandamentos de Deus. Nós não podemos aqui buscar a questão difícil quanto a por que Adão pecou.
[3] Este é o título do livro de Bernard Ramm sobre o pecado original, Offense to Reason (New York: Harper and Row, 1985).
[4] O presente do indicativo agei é entendido aqui como conativo. C. F. D. Moule, An Idiom Book of New Testament Greek, 2d ed. (Cambridge: Cambridge University Press, 1959), 8. Agei não deveria ser pressionado como um presente do indicative para dizer que Deus na verdade está levando os judeus a se arrependerem. O ponto do verso é que a bondade de Deus deveria levá-los a se arrependerem.

terça-feira, 20 de maio de 2014

UMA CRÍTICA AOS ARGUMENTOS WESLEYANOS A FAVOR DA GRAÇA PREVENIENTE (PARTE II)



Thomas Schreiner

            Wesleyanos apelam á graça dada na expiação e morte de Cristo por todos como uma indicação da graça preveniente. Eu não examinarei a questão da expiação desde que      ela é tratada em outro lugar nessa obra. [1] Na verdade, cavinistas têm tipicamente visto a graça como concedida aos eleitos na expiação, mas neste caso a graça outorgada é eficaz e garante a salvação. A questão é se na expiação de Cristo a concepção wesleyana da graça preveniente é ensinada; isto é, a escritura ensina que às pessoas é dada a habilidade de escolher ou rejeitar a Deus em virtude da expiação? Sem dúvida a graça é manifestada na expiação. Por exemplo, em Tito 2.11 diz que “a graça de Deus que traz salvação se manifestou a todos os homens.” Calvinistas geralmente argumentam que este texto ensina que a expiação assegura e realiza a redenção dos eleitos. Não é meu propósito defender ou refutar esta interpretação. Ainda que o texto estivesse sugerindo que a salvação está potencialmente disponível para todas as pessoas (I Tm 4.10), isto está muito longe de dizer que através da expiação Deus neutralizou os efeitos do pecado de Adão de forma que todas as pessoas têm a oportunidade de aceitar ou rejeitá-lo. Tito 2.11 diz que a graça de Deus se manifestou através da obra de Cristo na cruz, mas ele não diz que Deus tem desse modo fornecido a habilidade de crer a todas as pessoas. Wesleyanos concluem da expiação efetuada por Cristo que graça suficiente tem sido transmitida a todas as pessoas de forma que agora elas podem escolher se creem ou não. Mas este é precisamente o ponto que não é ensinado explicitamente no verso. Não necessariamente segue-se que desde que a graça foi manifestada na morte de Cristo que todas as pessoas como um resultado têm a habilidade de crer nele. O suporte exegético específico para esta conclusão está em falta.

            Um texto que poderia conduzir à conclusão wesleyana é João 12.32. Mas isto envolve uma má leitura do texto. Em João 6.37 Jesus diz: “todo aquele que o meu pai me dá virá a mim, e todo aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” Note que este texto especificamente ensina que apenas alguns virão a Jesus, ou seja, aqueles que foram dados pelo pai ao filho. Em outras palavras, o pai não deu todos ao filho, ele selecionou apenas alguns, são estes que virão ao filho e crerão nele (João 6.35).[2] O ensino de João 6.37 é reafirmado em 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o pai que me enviou não o trouxer, eu o ressuscitarei no último dia.” A palavra trazer (helkuō), que é usada em João 12.32, é também usada em João 6.37. O ponto em João 6.37 é que o pai não traz todas as pessoas, apenas algumas. Carson corretamente observa: “A combinação do verso             37a e o verso 44 prova que esta atividade de ‘atração’ do pai não pode ser reduzida ao que os teólogos ás vezes chamam de ‘graça preveniente’ dispensada a cada indivíduo, pois esta ‘atração’ é seletiva, ou então a nota negativa do verso 44 é sem significado.”[3] A concepção joanina de atração não é aquela que faz a salvação possível, mas aquela que faz a salvação eficaz. Aqueles que são atraídos virão a Jesus e crerão nele.

            Esta definição de atração significa que João ensina universalismo, desde que João 12.32 diz que Jesus atrairá todos a ele em virtude da cruz? O contexto de João 12.20-33 nos ajuda a responder esta questão. Os gregos, isto, gentios, se aproximaram de Filipe porque eles queriam ver Jesus (v. 20-23). Jesus ignora o pedido e em vez disso fala da necessidade de um grão de trigo morrer a fim de dar fruto (v. 24-26), e deste compromisso de cumprir sua missão (v. 27-28). A morte de Jesus é o meio pelo qual o julgamento de Deus do mundo e seu triunfo sobre satanás será realizado (v. 31). Ele conclui dizendo que quando ele for levantado atrairá todas as pessoas a ele (v. 32).

            O contexto é de suprema importância para o entendimento de João 12.32. Jesus parece ignorar o pedido de seus discípulos para se encontrar com os gregos que queriam vê-lo. Mas o ponto que Jesus faz é que a única forma pela qual os gregos virão a ele é através de sua morte. Ele deve morrer a fim de dar muito fruto e trazer os gentios a ele. O poder de satanás como o governante do mundo será quebrado apenas pela cruz. Assim, quando Jesus fala de atrair todas as pessoas para ele em virtude da cruz, o assunto no contexto é como os gentios podem vir a Jesus. A atração de todos não se refere a todas as pessoas individualmente, mas o meio pelo qual os gentios serão incluídos no povo de Deus. Carson novamente interpreta o verso corretamente: “aqui ‘todos os homens’ lembra o leitor o que desencadeou estas afirmações, ou seja, a chegada dos gregos, e significa ‘todas as pessoas sem distinção, judeus e gentios igualmente’, não todos os indivíduos sem exceção.”[4] A teoria wesleyana de que a graça preveniente é fornecida na expiação de forma que às pessoas é dada habilidade de escolher a salvação não pode ser sustentada no contexto de João 12.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: Chapter 9 in Still Sovereign. Thomas R. Schreiver and Bruce A. Ware, eds. Grand Rapids, Baker, 2000.



[1] Veja capítulo 11 por J. I. Packer.
[2] Para um apoio mais detalhado da divina eleição em João veja Robert W. Yarbrough, “Divine Election m the Gospel of John," no capítulo 2 desta obra; veja também D. A. Carson Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension (Atlanta: John Knox, 1981), 125-98.
[3] Carson, John, 293.
[4] Para uma recente explicação desta distinção que é um modelo de careza veja David M Ciocchi, "Understanding Our Ability to Endure Temptation A Theological Watershed," JETS 35 (1992) 463-68.