quinta-feira, 24 de abril de 2014

UM ENTENDIMENTO ARMINIANO DA ELEIÇÃO

Por Terrance Tiessen


            Tendo exposto com todas as letras as suas objeções à doutrina da dupla predestinação (no capítulo 5 de Contra o calvinismo), Roger Olson esboça a alternativa arminiana que ele julga ser superior.

UMA DOUTRINA ARMINIANA DA ELEIÇÃO

            Como John Wesley afirmou que a doutrina clássica arminiana da eleição é o pré-conhecimento de Deus de quem livremente receberá a graça capacitadora preveniente que Deus dá em igual medida para todos. Deus também prevê quem resistirá esta graça, estes são os reprovados. Desde que os homens decidem quem é eleito e quem é reprovado (isto é, depende do homem aceitar ou não o convite do evangelho), ambas eleição e reprovação são condicionais (129). Jack Cottrell argumenta que Deus voluntariamente se limitou ao dar às criaturas a liberdade autêntica (que é libertariana). Olson concorda com isso, e ele argumenta que esta é a única forma de fazer justiça aos textos bíblicos que declaram o amor de Deus por todos os seres humanos (João 3.16; 1 Tm 2.4) e tem em conta as expressões de condicionalidade na narrativa bíblica, tais como a tristeza de Deus, compaixão e reação ao comportamento (132).

            O entendimento da eleição que mais atrai Olson, porém, não é a escolha de indivíduos na condição de fé prevista, mas a eleição corporativa, que ele intitula como “a principal alternativa para a visão de eleição e salvação do ‘forte’ calvinismo” (130). Eu acho isso uma preferência comum entre os arminianos destes dias. Para uma boa confirmação da posição, Roger faz referência a William Klein que afirma que “a vontade de Deus não determina os indivíduos específicos que receberão esta salvação” (citado na página 130). Deus deseja a salvação para todos, mas “ele deseja (no sentido mais forte) dar vida àqueles que creem” (citado na página 131). “Cristo é o eleito de Deus, e a igreja é eleita nele” (citado a página 130), mas ela é graciosamente os indivíduos capacitados, respondendo ao chamado de Deus em Cristo, que decide a membresia da igreja. Deus sempre soube que estas pessoas serão e “ele as escolhe como um corpo em Cristo”, mas estas pessoas são as únicas cujo arrependimento e fé voluntários faz delas parte do corpo eleito.

MINHAS REFLEXÕES

            Eu apreciei o livro de Klein The New Chosen People quando eu o li anos atrás. Ele me convenceu de que a escritura tinha mais a dizer sobre a eleição corporativa de Israel e da igreja do que eu tinha visto anteriormente. Eu também vi que alguns dos textos que eu tinha interpretado como referências à salvação de indivíduos eram na verdade sobre o papel histórico deles no plano do pacto de Deus, tais como a discussão de Paulo sobre a escolha de Jacó em vez de Esaú, em Romanos 9. No entanto, eu não sou capaz de ignorar muitos textos eletivos que falam claramente da salvação de indivíduos, e eu não posso escapar da forte ligação entre estes textos e aqueles que nos ensinam sobre o chamado eficaz de Deus daqueles a quem ele (Deus) escolheu salvar.

            A última questão aparecerá como o foco de um capítulo posterior no livro de Olson, assim eu não expandirei sobre isso agora. Mas eu levarei um momento agora para identificar algumas referências bíblicas que descrevem a inequívoca escolha de Deus de indivíduos particulares para a salvação.

A ELEIÇÃO INCONDICIONAL DE INDIVÍDUOS PARA A SALVAÇÃO

            Os arminianos às vezes sugerem que a ideia de eleição individual incondicional apareceu pela primeira vez nas obras posteriores de Agostinho, mas Bruce Damarest demonstrou que este não é o caso. Atanásio (373) às vezes falava de eleição incondicional. Comentando Efésios 1.3-5 e II Tm 1.8-10, ele observou que “enquanto a queda foi ‘prevista’ a salvação de algumas pessoas foi predestinada ou ‘preparada de antemão’” (Discourse Against the Arians, 2.75-76; citado por Demarest, The Cross and Salvation, 114). Depois, Ambrósio (430) escreveu: “Deus chama aqueles a quem ele concede chamar; ele faz piedoso a quem ele quer fazer piedoso, pois se ele quisesse ele poderia ter convertido o ímpio em piedoso” (Exposition of the Gospel of Luke, 7.27; citado por Demarest, The Cross and Salvation, 114).

            Agostinho rejeitou a noção posterior assumida pelos arminianos de que o divino pré-conhecimento é simplesmente presciência. Apropriadamente, ele escreveu: “Se Deus nos escolheu com base no que ele previu que nós deveríamos ser bom, então ele também previu que nós não seríamos os primeiros para fazer a escolha dele (On the Gospel of St. Jn, 86.2; citado por Demarest, 115).

            Eu admito que o AT tem muito a dizer sobre a escolha incondicional de Deus de Israel como seu povo mas, dentro daquele povo, aqueles que tinham o que Paulo depois chama de “a fé de Abraão”, aquela que justifica, foram identificados como o remanescente fiel. Este era um grupo cuja fé genuína era obra de Deus. Eles eram os “escolhidos” de Deus (Is 65.15, 22; cf v.9), os chamados do Senhor (Joel 2.32) e aqueles que são reunidos pelo Senhor (Mq 2.12). Este era o remanescente que colocaria sua confiança no Senhor, que foram designados o povo de Deus (Is 10:20-24; Jr 31:7; Is 37:32). 

            Olson frequentemente e acertadamente, cita Jesus como a revelação suprema de Deus como amor. Desde que eu não posso escrever um tratado inteiro sobre a eleição no NT, eu mencionarei apenas o que eu vejo nos evangelhos, particularmente no ensino de Jesus. Lá, a eleição está principalmente em termos do reino de Deus, que é herdado por aqueles para quem Deus o preparou desde a fundação do mundo (Mt 20:23; 25:34). Deus é o autor daquela escolha (Lc 18:7; Mt 24:22,24,31; Mc 13:20-22) e ele a fez antes que o mundo tivesse sido feito. A parábola dos trabalhadores, em Mateus 20.1-16, nos ensina que Deus não é obrigado a tratar todos da mesma forma; todos recebem justiça, mas alguns recebem graça. Havia muitas viúvas necessitadas no tempo de Elias, mas ele foi enviado apenas para a viúva de Sarepta (Lc 4:25-26; 1 Rs 17:8-24); embora houvesse muitos leprosos em Israel, Naamã, o sírio, foi o único que foi curado (Lc 4:27; 2 Rs 5:1-14).

            É direito soberano do pai (sua eudokia, o beneplácito da sua soberana vontade) revelar ou ocultar o significado das palavras e ações de Jesus como ele quiser (Mt 11:25-26).
            Eu encontro no evangelho de João de forma explícita a escolha soberana de Deus de indivíduos particulares para serem salvos “O Filho dá vida a quem ele quer” (João 5.21), e Jesus sabia quais dos seus discípulos ele tinha escolhido (João 13:18). Ele tinha escolhido o grupo para o ministério, mas ele os escolheu individualmente, exceto Judas, para a salvação. Em João 10, Jesus se refere ao seu povo eleito como “as ovelhas;” elas são as pessoas a quem o pai deu especificamente ao filho (10:29; 17:2, 6, 9, 24; 18:9), e todos aqueles a quem o pai deu ao filho  virão a este (João 6.37).

            Jesus escolheu estas pessoas do mundo ambos para serviço e salvação (Jo 15:19; 17:6, 14, 16). Como D. A. Carson observa “elas são as ovelhas obedientes de Cristo em seu propósito salvífico antes delas serem suas ovelhas na prática obediente” (Divine Sovereignty, 192; citado por Demarest, 126). O pastor morreu para alcançar a salvação das ovelhas (Jo 10:11, 15), e então Jesus “revela-se redentivamente àqueles que o pai deu a ele do mundo (João 17.6, 8), e por aqueles ele intercede    no céu” (Damarest, 126). O pastor conhece as suas ovelhas e as chama pelo nome (10.3, 14, 27); as ovelhas conhecem a voz do pastor e o seguem (10.4, 27), mas outras não creem porque elas nãos são         ovelhas dele (10.26). Isto é, as pessoas não se tornam ovelhas porque elas creem, elas creem porque elas são ovelhas!
TEODICÉIA

            Em respostas às referências arminianas sobre a bondade de Deus, eu duvido que o apelo deles ao simples pré-conhecimento divino tenha vantagens significantes para uma teodicéia. As pessoas realmente ficarão mais satisfeitas com o arminianismo do que com o calvinismo, quando dizem para elas que Deus sabia o risco que ele correria em dar às criaturas livre arbítrio libertariano, mas que ainda ele escolhe deixar os seres humanos decidirem quantas pessoas serão salvas e quanto mal existiria no mundo? Pessoalmente, eu me regozijo na crença de que estas decisões momentâneas foram mantidas no controle do único sábio e bom Deus que criou a todos nós.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://thoughtstheological.com/an-arminian-understanding-of-election/

segunda-feira, 14 de abril de 2014

HERMAN WITSIUS (1636–1708): PREDESTINAÇÃO NA TEOLOGIA DO PACTO

             Esta passagem do teólogo do pacto Herman Witsius (1636–1708) baseia a predestinação em fontes bíblicas, e, mais uma vez, revela a atenção reformada às línguas bíblicas originais. A teologia do pacto foi pensada para temperar a severidade da doutrina da predestinação ortodoxa ao sustentar que os decretos de Deus sempre operam num contexto de um relacionamento pactual gracioso com a humanidade. A ênfase no parágrafo de abertura sobre a eleição do próprio Cristo foi tomada mais além na teologia de Karl Barth no século 20. O excerto é da obra Economy of the Covenants, livro 3, capítulo 4.

“O início e primeira fonte [do pacto da graça] é a eleição, ambos de Cristo o salvador e daqueles a serem salvos por Cristo. Pois mesmo Cristo foi escolhido por Deus, e por um eterno e imutável decreto, para ser nosso salvador; e, portanto, ele foi preordenado antes da fundação do mundo (I Pe 1.20). Aqueles a quem Cristo estava para salvar foram dados a ele pelo mesmo decreto. Eles são portanto os escolhidos em Cristo (Jo 17.6). Isto é, não só por Cristo como Deus e consequentemente eleitor deles, mas também em Cristo como mediador para serem salvos pelo seu (de Cristo) mérito e poder e desfrutar comunhão com ele.

Nós assim a descrevemos: a eleição é o eterno, livre e imutável conselho de Deus em revelar a glória da sua graça na salvação eterna de certas pessoas (Ef 1.4-6). Nós chamamos eleição o conselho de Deus, pelo qual o termo que nós queremos dizer é comumente chamado decreto. Paulo chama de προθεσις, “o propósito”, ou “o pré-apontamento” de Deus. Este termo aparece na própria escolha do apóstolo e denota um decreto certo, firme e fixo de Deus do qual ele nunca pode se arrepender e que não depende de nada fora dele mesmo (isto é, de nenhum mérito humano), mas é encontrado apenas no beneplácito de Deus (II Tm 1.9; Ef 1.11; Rm 8.28; 9.11).

A eleição para a glória não é algum decreto “geral” de Deus sobre salvar os crentes e piedosos que perseveram na fé até o fim de suas vidas. Mas uma designação particular de certas pessoas individuais a quem Deus tem inscrito como herdeiras da salvação.

O próprio termo προοριζειν, “predestinar”, o qual o apóstolo usa mais frequentemente, não obscuramente descobre esta verdade. Pois como οριζειν significa “assinalar” (apontar) ou “ordenar” uma certa pessoa (Atos 17.31; 10.42; Rm 1.4) então προοριζειν como aplicado aos herdeiros da vida eterna deve significar “inscrever”, “escrever”, “registrar” alguns indivíduos como herdeiros no testamento eterno”.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://deovivendiperchristum.wordpress.com/2013/10/04/herman-witsius-1636-1708-predestination-in-covenant-theology/

sábado, 12 de abril de 2014

COMO DEUS TORNOU (USOU) O PECADO DO HOMEM PARA A SUA PRÓPRIA GLÓRIA

Por Theodore Beza



“Não restaria nada mais para o mundo inteiro, exceto ir para a sua ruína (Rm 3.19). Mas Deus, sendo não só muito justo, mas também muito misericordioso, tinha de acordo com a sua infinita sabedoria, eternamente estabelecido um caminho para tornar todos os males para a sua glória: para uma maior manifestação da sua bondade (Rm 3.21-25), em relação àqueles a quem ele escolheu eternamente de modo a ser glorificado na salvação deles (Rm 8.28; 9.23). E, por outro lado, ele tornou o pecado do homem para a manifestação do seu soberano poder e sua ira, pela justa condenação dos vasos de ira preparados para a destruição (Rm 9.22; Ex 9.6). Como Santo Agostinho diz: ‘Se todos fossem salvos, os salários do pecado demandados pela justiça seriam escondidos. Se nenhum fosse salvo, ninguém veria o que a graça concede’.” 

- Theodore Beza (1519-1605), The Christian Faith (Confession De Foi Du Chretien), p. 9

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://deovivendiperchristum.wordpress.com/2013/08/23/theodore-beza-1519-1605-how-god-has-turned-the-sin-of-man-to-his-own-glory/

quinta-feira, 10 de abril de 2014

UMA BREVE RESPOSTA A UMA RÁPIDA PERGUNTA

Por James Anderson

            O teólogo arminiano Roger Olson postou uma rápida questão para seus interlocutores calvinistas (seja quem for estes):

“Aos meus interlocutores calvinistas eu pergunto: se o livre arbítrio como escolha não causada é logicamente incoerente, o que dizer sobre a decisão de Deus de criar o mundo?”

            O Dr. Olson aparentemente acha que isto levanta um problema para os calvinistas, mas eu realmente não tenho certeza por quê. A ideia, presumivelmente, é que a decisão de Deus em criar foi não causada e, portanto a ideia de uma escolha não causada deve ser logicamente coerente. Mas a questão tem várias suposições problemáticas por trás dela.

            Em primeiro lugar, poucos defensores contemporâneos do livre arbítrio libertariano (LFW) admitiriam que isto envolva escolhas não causadas. Eu suspeito que a maioria dos filósofos cristãos hoje que sustentam o livre arbítrio libertariano aceitam alguma versão do agente causal. Mas nesta visão, as escolhas livres não são não-causadas; elas são causadas pelo agente (sem causa suficiente antes). Se o Dr. Olson pensa que o livre arbítrio libertariano (LFW) envolve escolhas não causadas (como ele parece crer, dada a forma como ele coloca a questão) então eu diria que ele está em uma minoria até mesmo entre seus companheiros libertários.

            Mas deixemos essa questão de lado. O principal problema aqui é que os calvinistas não precisam estar comprometidos com a ideia de que o livre arbítrio libertariano é logicamente incoerente. Sim, há alguns calvinistas que têm esta visão. Mas ela não é implicada pelo calvinismo propriamente dito. Um calvinista pode consistentemente sustentar que o livre arbítrio libertariano é uma ideia coerente, mas que ela na verdade não é esclarecida (isto é, criaturas poderiam ter tido livre arbítrio libertariano, mas na verdade não têm).

            Na verdade, um calvinista pode ir mais longe e dizer que enquanto o livre arbítrio libertariano propriamente dito pode ser coerente (isto é, não há nada incoerente com a ideia de livre arbítrio libertariano) é necessariamente falso que quaisquer criaturas têm livre arbítrio libertariano. Ele pode sustentar (como muitos calvinistas fazem) que o livre arbítrio libertariano humano é incompatível com a onisciência divina ou providência divina meticulosa. E se Deus possui seus atributos de onisciência e soberania essencialmente (isto é, ele não poderia falhar em possuir aqueles atributos) então o livre arbítrio libertariano deve ser impossível no sentido lógico amplo: não há mundo possível no qual as criaturas tem livre arbítrio libertariano. (Isto não quer dizer, é claro, que as criaturas não poderiam ter livre arbítrio em algum outro sentido significante). Mas isto não se segue a partir da afirmação de que o livre arbítrio libertariano humano é logicamente impossível que o livre arbítrio libertariano propriamente dito é logicamente incoerente. O calvinista poderia consistentemente sustentar uma das seguintes visões:

1. O livre arbítrio libertariano é logicamente coerente, e Deus tem livre arbítrio libertariano, e necessariamente nenhuma criatura tem.

2. O livre arbítrio libertariano é logicamente coerente, mas Deus não tem livre arbítrio libertariano, e necessariamente nenhuma criatura tem.

            Então, é difícil ver por que os calvinistas deveriam estar abalados pela pergunta de Olson. Ele relata uma troca de E-mail com John Frame na qual (como ele recorda) ele extraiu uma concessão do Dr. Frame no sentido de que o livre arbítrio libertariano deve ser coerente se nós admitimos que Deus faz escolhas livres. Mas por que nós deveríamos considerar tal concessão significante? Isto não levanta nenhum problema para o calvinismo.

            Uma observação final. A pergunta de Dr. Olson também é pressuposta na hipótese de que nós devemos conceder que Deus tem livre arbítrio libertariano se nós afirmamos que Deus escolheu livremente criar. Mas esta hipótese não está além da questão também. Steve Cowan, por exemplo, argumentou que há alguns problemas com construir a liberdade divina nos termos libertários padrão. Portanto esta hipótese não pode simplesmente ser presumida e passar despercebida. Mas ainda que ela produza a ideia de que Deus tem livre arbítrio libertariano, isto não deveria fazer nenhuma calvinista se envergonhar. Os calvinistas têm muitas outras boas razões para negar que as criaturas tem livre arbítrio libertariano sem ter que argumentar que o livre arbítrio libertariano propriamente dito é logicamente incoerente.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://www.proginosko.com/2010/08/a-short-answer-to-a-quick-question-for-calvinists/

segunda-feira, 7 de abril de 2014

SIM, O ARMINIANISMO REALMENTE É SINERGISTA


       Por Steve Hays

           Um dos meus amigos prosseguiu em comentar duas declarações de Abasciano:

“Deixe-me acrescentar que eu também sou um pouco cético em relação à abordagem que caracteriza a nossa resposta a Deus como simplesmente não resistindo. Enquanto isso soa nobre e de maneira que glorifica a Deus porque parece minimizar nosso papel e exaltar o papel de Deus, isso não parece combinar com a imagem bíblica da fé em minha opinião. A fé bíblica não é simplesmente não resistir a Deus, mas é estar ativamente confiando nele.”

            Isto é claramente um tiro no “modelo ambulatorial de superação da graça” que Keathley adapta de Richard Cross em salvação e soberania [Salvation and Sovereignty]. Eu concordo que caracterizar a nossa resposta a Deus como mera não resistência é confuso quando comparado ao testemunho bíblico. É claro, eu sou igualmente pessimista quanto à alternativa de Abasciano:

“A fé em si mesma não é meritória por várias razões. Uma destas razões é que ela não pode ser exercida sem a ajuda da graça de Deus.”

            Simplesmente estipular que a atividade de Deus é necessária para a fé salvadora não faz nada para desviar o problema do mérito. Se o juiz oferece um perdão a dez criminosos e apenas cinco aceitam, claramente a oferta do juiz foi uma condição necessária para o perdão real deles. Mas se cinco aceitam enquanto cinco recusam, os cinco aceitantes têm algo do qual se gloriar: a sabedoria deles, acuidade, iniciativa, etc. ao tomar a oferta enquanto os outros recusaram. Eles fazem a diferença decisiva aqui, não o juiz. Então a questão do mérito permanece.

            Parece que o arminianismo é colocado em uma situação de decisão difícil: o modelo ambulatorial expele a fé bíblica de qualquer significado reconhecível, enquanto o modelo do “Deus é a mera condição necessária” nos deixa com uma fé meritória sobre a qual nós podemos nos gloriar.

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/04/yes-virginia-arminianism-really-is.html

Veja também: http://evangelicalarminians.org/some-informal-comments-on-matthew-pinsons-denial-that-arminianism-is-synergistic/

domingo, 6 de abril de 2014

A TEORIA GOVERNAMENTAL DA EXPIAÇÃO



Por R. K. McGregor Wright

            Segundo a nova teoria arminiana desenvolvida por Hugo Grotius, Deus realizou a expiação por colocar Cristo como um exemplo pretendendo ilustrar o que o pecado realmente merece. Os pecadores deveriam concluir disso que, para que o mundo possa ser governado de maneira própria, eles devem ser moralmente obedientes a Deus. Assim, essa teoria é chamada de teoria governamental. Como Platt deixa claro, ela foi inventada como uma alternativa ao pensamento calvinista da morte penal e substitutiva de Cristo pelo pecador. Tem sido assinalado, por outros estudiosos, que a ideia de Grotius é realmente uma forma da teoria da influência moral, visto que o seu poder salvador repousa não em ser um preço pago ou punição em favor do pecador, mas em ser meramente um exemplo proporcionado por Deus para induzir fé e arrependimento ao revelar quão medonho é o pecado e o que ele merece.

            Que há, de fato, uma influência moral pretendida por Deus na morte de seu filho, não pode ser colocado em dúvida. Porém, reconstruir a obra total da expiação em torno dessa ideia é colocar muito peso nesse conceito, além de ignorar outros elementos da expiação que se apresentam muito mais fortes na escritura do que qualquer grau de influência moral.

            O poder moral da cruz para influenciar os pecadores para Deus é o bem ilustrado por um hino famoso:

I
When I survey the wond’rous Cross
(Quando eu contemplo a cruz maravilhosa)
On which the Prince of Glory died,
(sobre a qual o príncipe da glória morreu),
My richest gain I count but loss
(meu ganho mais precioso eu considero como perda)
And pour contempt on all my pride
(e derramo total desprezo sobre todo o meu orgulho).
            Mas isso não nega, nem é um substituto adequado para:

II
They turned their eyes
(Eles desviaram os olhos [dele])
And treated him with scorn;
(E trataram-no com desprezo);
But ‘twas their griefs upon him lay,
(Mas foram as aflições deles postas sobre ele),
Their sorrows He has born.
(Suas tristezas ele suportou).
III
Like sheep we went astray
(Como ovelhas nós nos desviamos)
And broke the fold of God,
(e deixamos o aprisco de Deus),
Each wandering in a different way,
(cada um se desviando para um caminho diferente),
But all the downward Road.
(Mas todos em direção ao fundo).
IV
How dreadful was the hour
(Quão terrível foi a hora)
When God our wanderings laid
(Quando Deus estabeleceu nossos desvios)
And did at once his vengeance pour
(E derramou sua vingança de uma só vez)
Upon the shepherd’s head!
(Sobre a cabeça do pastor!)
V
How glorious was the Grace
(Quão gloriosa foi a grace)
When Christ sustained the stroke!
(Quando Cristo suportou o golpe!)
His life and blood the shepherd pays
(Com sua vida e seu sangue o pastor paga)
A ransom for the flock.
(Um resgate pelo rebanho).

            Essas últimas quatro estrofes são do mesmo Isaac Watts que escreveu a primeira e mais famosa estrofe. Watts não tinha qualquer dificuldade em convidar o rebanho para cantar ambos os conceitos, o sacrifício substitutivo e o da influência moral, virtualmente no mesmo fôlego. Grotius, contudo, rejeitou o primeiro enquanto promoveu o segundo.

            É importante para os nossos propósitos presentes observar que, no conceito de Grotius, a real eficácia da morte de Deus em nos salvar depende inteiramente da nossa resposta. A morte em si mesma é uma mera demonstração da retidão divina, que por si mesma não salva ninguém. Naturalmente, os arminianos ficaram totalmente felizes com o conceito de Grotius, enquanto calvinistas como John Owen escreveram de maneira firme contra essa teoria, tentando demonstrar as afinidades desse conceito com as ideias ainda menos ortodoxas dos socinianos, a quem ela devia pouca coisa historicamente. De fato, a principal obra de Grotius sobre a expiação é hoje realmente entendida como uma crítica ao socianismo.

            Os arminianos evangélicos modernos frequentemente preferem uma teoria da influencia moral porque ela, de maneira muito evidente, presta-se a uma ilustração vívida na pregação do evangelho, mas o conceito da substituição é igualmente fácil para ilustrar. Já em Gênesis 22 encontramos elementos preditivos no oferecimento de Isaque. O cordeiro proporcionado por Deus morre no lugar do filho pecador do pai Abraão. “... Tomou Abraão o cordeiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho” (v.13).

            Alguns liberais modernos têm continuado a usar a linguagem da “influência moral”, mas eles não têm um propósito racional subjacente à morte de Cristo para explicar como ela poderia ser o ato de “um amor remidor”, da maneira como eles a apresentam. Algumas vezes é observado, de modo incisivo, que nós não realizamos nada por ninguém que amamos ao meramente oferecer a nossa própria vida. A questão do significado da cruz permanece, portanto, para todos aqueles que não percebem a relação entre o ato e o seu propósito, além do mero fato de um profeta inoportuno chocar-se com as autoridades por causa do seu estilo pessoal de messianismo que falhou em satisfazer a expectativa popular.

            O essencial para qualquer teoria da expiação é que a morte de Cristo foi um ato deliberado da sua parte. O que, exatamente, ele pensava que estava fazendo? A ideia calvinista da morte de Cristo procura responder a essa pergunta de maneira explícita.

Fonte: A soberania banida, R. K. McGregor Wright. p. 151-154.