sábado, 29 de março de 2014

ESCOLHAS HUMANAS

Por R. K. McGregor Wright

            As escolhas humanas ocorrem ao longo de toda a Bíblia, começando com a escolha de Adão em obedecer a Deus e ter os animais sob seu domínio no Jardim do Éden, como foi ordenado em Gênesis 1.26. A queda também envolveu escolhas, que foram determinantes para o que se seguiu.

            Quando os arminianos veem um exemplo de uma escolha, eles automaticamente presumem que ela é uma escolha do livre arbítrio, porque isso é exigido pelas suas pressuposições. No entanto, ignorando por ora as reclamações arminianas a respeito das “marionetes” e dos “autômatos”, os calvinistas estão tão plenamente cônscios de suas próprias escolhas como plenamente aceitam os muitos casos de escolhas registradas na Bíblia. Nunca encontrei um calvinista que negasse a realidade ou a experiência das escolhas humanas. A questão não é a respeito da realidade das escolhas, mas a respeito do fato de elas serem causadas ou não.

            Além disso, os arminianos e pelagianos não podem provar a existência de um livre arbítrio meramente porque ele é tão “óbvio” para eles. Eu já observei que nenhum ser humano é consciente da causação no cérebro. De fato, não somos, de maneira alguma, nem mesmo conscientes do cérebro. Não temos nenhuma noção do mecanismo de consciência dentro de nós, muito menos de que haja fatores causais envolvidos nesse relacionamento misterioso entre o cérebro e a alma ou a mente. Esse grande buraco de ignorância pessoal exclui qualquer certeza de que uma escolha particular, de fato, não foi precedida por causas das quais a escolha é o efeito resultante. Os arminianos concluem que, porque eles não estão conscientes das causas que afetam a vontade deles, ela deve ser livre de todas as causas. Mas a conclusão não é autorizada pela premissa. De fato, pode sempre haver causas agindo sobre a vontade das quais simplesmente somos inconscientes. Nós nunca poderíamos saber que as coisas não são assim, a menos que fôssemos oniscientes. Sobre a base da teoria do “teísmo aberto” [ou teologia relacional. N. do R.], o próprio Deus é ignorante dos atos futuros do livre arbítrio. Portanto, não sendo onisciente, ele poderia não saber se a vontade seria livre ou não num caso particular. Ele apenas não saberia o suficiente.

            Nossa conclusão deve ser que a realidade das escolhas não requer que as nossas escolhas sejam livres de toda causação determinante. A proposição de que as pessoas têm livre arbítrio não pode ser provada pelo simples fato de ela ser supostamente óbvia para alguns arminianos. O fato de ser óbvia é um estado subjetivo — o óbvio deve ser transformado em argumentos conclusivos antes que o ponto seja óbvio para outra pessoa.

Fonte: A soberania banida, R. K. McGregor Wright, p. 167-168.
             

quinta-feira, 27 de março de 2014

COMO A ELEIÇÃO CORPORATIVA FALHA



            Brian Abasciano é um proeminente apologista arminiano (na verdade, o preseidente da SEA). A esse respeito, ele é uma versão da geração mais nova de I. H. Marshall.

            Aqui ele está defendendo a eleição corporativa. O que é admirável é que ele define proginosko de uma forma que é muito próxima (ou idêntica) à definição calvinista. ELE NÃO CRÊ QUE ELA SIGNIFICA PRÉ-CONHECIMENTO NESTAS PASSAGENS. ANTES, SIGNIFICA ESCOLHA PRÉVIA.

            Por esse ponto de vista, nós deveríamos traduzir Romanos 8.29 como:

Porque aqueles a quem ele escolheu de antemão ele também predestinou para serem conformados à imagem de seu filho

            Romanos 11.2 como:

Deus não rejeitou o seu povo a quem ele escolheu de antemão.

            E I Pe 1.1-2 como:

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia, de acordo com a pré-escolha de Deus pai, em santificação do espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue.
           
            É claro, ele tentaria mitigar a força desta concessão, mas é uma concessão prejudicial.

            Ao concordar que Deus sabe o futuro, incluindo quem crerá, a perspectiva da eleição corporativa tenderia a compreender as referencias ao pré-conhecimento em Romanos 8.29 e I Pe 1.1-2 como se referindo a um conhecer prévio relacional que equivale a previamente reconhecer, adotar ou escolher pessoas como pertencentes a Deus (isto é, no relacionamento do pacto). A Bíblia às vezes menciona este tipo de conhecimento, tais como quando Jesus fala daqueles que nunca verdadeiramente se submetem ao seu senhorio: “E então eu lhes declararei: ‘eu nunca vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Mt 7:23; cf. Gn 18:19; Jr 1:5; Am 3:2; 1 Co 8:3). Deste ponto de vista, ser escolhido de acordo com o pre-conhecimento de Deus significaria ser escolhido por causa da escolha prévia de Cristo e do povo de Deus nele. “Aos que [plural] ele conheceu” em Rm 8.29 se referiria a igreja como um corpo e a eleição deles em Cristo assim como a identidade destes como a continuação legítima do povo escolhido de Deus, o qual os crentes individuais têm parte pela fé em Cristo. Tal referência é parecida com as afirmações na escritura pronunciadas a Israel sobre Deus escolhê-los no passado (isto é, preconhecendo-os; Dt 4:37; 7:6-7; 10:15; 14:2; Is 41:8-9; 44:1-2; Am 3:2), uma eleição compartilhada pela geração contemporânea tida em vista.  Em toda geração, poderia ser dito de Israel ter sido escolhido. A igreja agora tem parte naquela eleição através de Cristo, o cabeça e mediador do pacto (Rm 11:17-24; Ef 2:11-22).

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/03/how-corporate-election-backfires.html

terça-feira, 25 de março de 2014

BREVE COMENTÁRIO DE ROMANOS 8.29

Por Steven Lawson

 Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos;

            A expressão conheceu de antemão, empregada aqui por Paulo muitas vezes é mal entendida. A palavra grega para “conhecer” (ginosko) significa “amar numa relação pessoal, íntima”, o que lembra a união física entre marido e mulher (Gn 4.1; Mt 1.25). O verbo conhecer significa realmente “escolher para amar” (Am 3.2). No caso da palavra pré-conhecimento, o prefixo pré (pro) significa “de antemão”. Consequentemente, “pré-conhecimento” significa muito mais que meramente prever futuros acontecimentos, capacidade que certamente Deus tem. Antes, este verbo (proginosko) fala de uma escolha amorosa de pecadores feita por Deus antes do princípio do tempo. O texto aqui em foco não diz que Deus previu acontecimentos, como por exemplo, alguém crer em Cristo. Em vez disso, que esta passagem ensina que Deus conheceu de antemão, ou teve pré-conhecimento de indivíduos, um assunto inteiramente diferente. O pré-conhecimento divino é o amor eletivo e distintivo de Deus por seus escolhidos. Paulo, então, está dizendo aqui que Deus escolheu de antemão quem amaria salvificamente.

            Acrescentando algo a esse ponto, John Murray raciocina:

É Deus quem predestina, chama, justifica e glorifica. A previsão da fé estaria em desarmonia com a ação determinativa que se atribui legitimamente a Deus nesses outros casos, e constituiria um enfraquecimento de toda ênfase neste ponto, exatamente onde menos a deveríamos esperar. A previsão tem pouco do fator ativo, não podendo, pois fazer justiça ao monergismo divino no qual grande parte da ênfase cai. Não é a previsão da diferença, mas o pré-conhecimento que faz com que exista a diferença; não uma previsão que reconhece a existência de algo, mas o pré-conhecimento que determina a sua existência. É um amor que faz distinção. [...] “Conhecer de antemão” focaliza a atenção no amor distintivo de Deus pelo qual os filhos de Deus foram eleitos.[1]

            Quer dizer que conhecer de antemão é um sinônimo apropriado para amar de antemão e preordenar.

Fonte: Fundamentos da graça, Steven Lawson, p. 503-504.


[1] John Murray, The epistle to the romans, Vol 1 (Grand Rapids, M1: Eerdmas Publishing Co., 1959, 1965), 317-318.

domingo, 23 de março de 2014

OS REMONSTRANTES


Por R. C. Sproul

            Em 1610, os seguidores de Armínio e Episcopius, induzidos por uma declaração de Johan van Oldenbarneveldt, redigiram uma declaração de fé chamada The Remonstrance, que deu ao seu grupo o nome de Remonstrants. Os remonstrantes apresentaram suas concepções numa série de cinco artigos que frequentemente aparecem sob o título Articulo Arminiani sive remonstrantia. Roger Nicole resume esses cinco artigos como se segue:

1. Deus elege ou reprova com base na fé ou incredulidade antevista.

2. Cristo morreu por todos e cada um dos homens, embora só os crentes sejam salvos.

3. O homem é tão depravado que a graça divina é necessária para a fé ou para qualquer boa obra.

4. É possível resistir a essa graça.

5. Se todos os que são verdadeiramente regenerados vão certamente perseverar na fé é um ponto que precisa mais investigação.[1]

            Os dois artigos que se relacionam de forma mais forte aos temas em consideração neste volume são os artigos 3 e 4:

            3... o homem não tem fé salvadora de si mesmo nem pelo poder do seu próprio livre arbítrio, uma vez que está no estado de apostasia e o pecado não pode pensar, desejar ou fazer qualquer bem que seja verdadeiramente bem (como é o caso especialmente da fé salvadora) por e mediante si mesmo; mas é necessário que ele seja regenerado por Deus, em Cristo, por meio do seu Santo Espírito, e renovado no entendimento, afeições ou vontade e em todos os poderes, a fim de que possa entender corretamente, meditar, desejar e realizar o que é verdadeiramente bom, de acordo com a palavra de Cristo, “sem mim, nada podereis fazer” (Jo 15.5).

            4... esta graça de Deus é o início, desenvolvimento e finalização de todo o bem, também o homem regenerado não pode, à parte dessa graça prévia ou auxiliadora, despertadora, consequente e cooperativa, pensar, desejar ou fazer o bem ou resistir a qualquer tentação para o mal; assim é que todas as boas obras ou atividades que podem ser concebidas devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Mas, com relação ao modo dessa graça, ela não é irresistível, desde que está escrito a respeito de muitos que resistiram ao Espírito Santo (Atos 7.51) e em outras partes em muitos lugares).[2]

            Em 1611, foi organizada na Holanda uma conferência que permitia aos remonstrantes interagir com representantes de sua oposição. A oposição apresentou The Counter Remonstrance, que consistia em sete artigos de resposta aos pontos controversos. The Counter Remonstrance continha as seguintes declarações:

            3. Deus, na sua eleição, não contou com a fé ou conversão dos seus eleitos nem com o uso correto dos seus dons com base para a eleição; mas, ao contrário, ele, em seu conselho eterno e imutável, tencionou e decretou conceder a fé e a perseverança na piedade e, assim, salvar aqueles a quem ele, de acordo com o seu agrado, escolheu para a salvação.

            5...Além disso, para o mesmo fim, Deus, o Senhor, tem seu santo evangelho pregado, e o Espírito Santo opera exteriormente por meio da pregação deste mesmo evangelho e interiormente por meio de uma graça especial tão poderosa nos corações dos eleitos de Deus que ele ilumina a mente deles, transforma e renova sua vontade, removendo o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne, de maneira que, por meio disto, eles não apenas recebem poder para se converterem e crerem, como também, de fato e desejosamente se arrependerem e crerem.[3]

Fonte: Sola Gratia, R. C. Sproul. p. 131-133.


[1] Roger Nicole, “Arminianism”, in Everett F. Harrison (org.), Baker’s dictionary of theology (Grand Rapids: Baker, 1960), p.64.
[2] The Remonstrance of 1610, apêndice C por Peter Y. De Jong (org.), crisis in the reformed churches: essays in commemoration of the great Synod of Dort, 1618-1619 (Grand Rapids: Reformed Fellowship, 1986), p.208-9.
[3] Te Counter Remonstrance of 1611, apêndice D in crisis in the Reformed churches, de De Jong (org.), p. 211-12.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A BASE BÍBLICA DA VOCAÇÃO EFICAZ


 Por Anthony A. Hoekema

            Neste ponto precisamos voltar um pouco e refletir sobre o que a Bíblia ensina a respeito do que as criaturas caídas são por natureza. São elas naturalmente — isto é, á parte do trabalho especial do Espírito Santo — capazes de responder ao convite do evangelho em fé e arrependimento?

            A Bíblia ensina que elas não são. Vejamos primeiro I Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural [ou ‘não espiritual’; em grego, psychicos] não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Paulo se refere aqui ao que o homem é por natureza, ao homem não regenerado. Tais pessoas não só não entendem as coisas que vêm de Deus, mas, pior, essas coisas lhe são loucura, Paulo diz algo semelhante em Romanos 8.7: “Por isso, o pendor da carne [‘a mente pecaminosa’, ‘a mente carnal’; em rego, to phronema tes sarkos] é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar”. A “mente pecaminosa” é a mente do ser humano pela sua natureza; se essa mente é hostil a Deus (ou “inimiga de Deus”) e não está apta a submeter-se à lei divina, como pode ela responder favoravelmente ao apelo para arrependimento e fé? A condição dos seres humanos naturais é descrita com palavras devastadoras em efésios 2.1-2: “E vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito eu agora atua nos filhos da desobediência”. Nossa condição natural não é somente de enfermidade espiritual — uma doença que pode, talvez, ser curada com algum esforço de nossa parte. Não, nossa condição é de morte espiritual. E como pode alguém espiritualmente morto responder favoravelmente ao convite do evangelho?

            Jesus ensinou claramente que por natureza não somos aptos a aceitar o convite do evangelho quando ele disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo [literalmente, nascer do alto; em grego, gennethe anothen], não pode ver o reino de Deus (...) quem não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3,5). Não somente não podemos entrar no reino, como não podemos sequer vê-lo, a não ser que recebamos vida do alto. Veja o que Jesus disse aos judeus: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). Somos espiritualmente mortos e, por isso, precisamos ser vivificados espiritualmente antes que possamos responder afirmativamente às sinfonias da graça de Deus: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos e pecados, nos deu vida juntamente com Cristo -, pela graça sois salvos” (Ef 2.4,5).

            Se nossa condição natural é como a descrita nas passagens mencionadas, é óbvio que não podemos, por nós mesmos, aceitar o convite do evangelho. Pedir às pessoas que são, por natureza, espiritualmente mortas, hostis a Deus, incapazes de entender as coisas do Espírito de Deus e incapazes de se submeter à lei de Deus, que respondam favoravelmente ao convite para arrepender-se dos pecados e crer em Cristo, é como pedir a uma mulher totalmente surda que responda a uma pergunta, ou a um cego que leia um recado. É como ficar em pé na beira do telhado e pedir a uma pessoa na calçada que voe até lá.

            Será que a Bíblia ensina algo sobre a vocação eficaz? – um chamado em que Deus eficazmente habilita-nos a responder ao convite do evangelho com um sim? Na verdade, ensina. Será útil nos voltarmos primeiramente para I Coríntios 1.22-24:

Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.

                Enquanto pregava, Paulo descobriu que alguns aceitavam e outros rejeitavam a sua mensagem. A única maneira pela qual ele pode ter descoberto que o Cristo crucificado que ele pregava era uma pedra de tropeço para alguns judeus e loucura para alguns gregos era pregando a eles e observando suas respostas. Mesmo aqueles aos quais o Cristo pregado era pedra de tropeço ou loucura, porém, haviam recebido o convite do evangelho. Quando Paulo acrescenta: “para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”, ele diz nada mais que “para aqueles a quem Deus eficazmente chamou” – chamados de maneira a responder favoravelmente ao evangelho. Assim a palavra, kletois, como usada nessa passagem, deve se referir à vocação eficaz.

            Para provar que a vocação eficaz está descrita aqui, pergunte a si mesmo se aqueles para os quais o Cristo crucificado é uma pedra de tropeço ou loucura, foram chamados. Se Paulo estava pensando apenas no convite do evangelho, a resposta seria sim. Mas Paulo, aqui, particularmente exclui os ouvintes incrédulos do número daqueles que foram chamados; só aqueles para os quais o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus são denominados de kletoi, os chamados. E nesse contexto, de que há uma vocação no sentido de que foram eficazmente chamados, aqueles outros não foram chamados.

            Para mais uma vez realçar a diferença entre esses dois tipos de vocação, compare essa passagem com Lucas 14.24: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados [literalmente, aqueles vocacionados; em grego, ton keklemenon] provará a minha ceia”. Na passagem de Lucas nenhum dos chamados é salvo; mas na passagem de I Coríntios só os chamados são salvos.

            A distinção, portanto, entre esses dois tipos de chamado não é apenas uma “ficção calvinista”, como alguns arminianos alegam, ela está claramente baseada na escritura.

            Olhemos agora para Romanos 8.28-30, destacando de início o verso 28:

E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.

            Quem são aqueles para os quais todas as coisas cooperam para o bem (ou para cujo bem Deus opera em todas as coisas)? Eles são descritos de duas maneiras: os que “amam a Deus” e aqueles “que foram chamados segundo seu propósito”. A primeira dessas expressões fala do que esse povo faz: eles “amam a Deus”. A segunda expressão fala do que Deus faz: Deus os vocaciona “segundo o seu propósito” (tois kata prothesin kletois). Certamente, há um significado maior, aqui, no termo kletois (aqueles “que foram chamados”) do que apenas terem sido convocados pelo convite do evangelho. Essa certeza vem do complemento: o chamado do evangelho é uma vocação segundo seu propósito. Contudo, é certo dizer que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que são chamados, sem considerar se creem ou não? É possível dizer que todos os que recebem o chamado são pessoas que amam a Deus? Obviamente, não. Aqui, como em I Coríntios 1.24, a palavra kletois (aqueles “que foram vocacionados”) refere-se à vocação eficaz: aqueles a quem Deus, pelo Espírito Santo, efetivamente concede a vida, habilitando-os a responder em fé ao convite do evangelho. Esse chamado é “segundo seu propósito” de conduzi-lo à salvação – propósito fundado na escolha deles em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1.4).

            Os versos que se seguem, 29 e 30. Dão a razão da declaração feita no verso 28:

29 Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; 30 e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.

            “Chamados”, no verso 30, deve ser entendido também como se referindo à vocação eficaz, por duas razões: (1) “chamado” está apenas expressando na forma de verbo (ekalesen) aquilo que foi dito no verso 28 em forma de substantivo: “[aqueles] que foram chamados” (kletois). As pessoas mencionadas como “aqueles chamados”, no verso 30, são as mesmas pessoas “chamadas segundo seu propósito”, no verso 28. Assim, os versos 29 e 30 fundamentam o verso 28. (2) Todos os que foram “chamados”, no verso 30, são também mencionados como justificados: “aos que chamou a esses também justificou”. Ninguém pode dizer que todos os que receberam o chamado do evangelho foram justificados independentemente de terem crido. Mas pode-se dizer que todos os que foram efetivamente vocacionados são justificados – e que finalmente serão glorificados. “Chamados”, portanto, nos versos 28 e 30, quer dizer “efetivamente vocacionados”.

            Outra passagem em que a palavra “chamado” é usada no sentido de “vocação eficaz” é I Coríntios 1.9: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados (eklethete, de kaleo) à comunhão do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. A “comunhão do filho de Deus significa união e comunhão com Cristo – uma comunhão que deixa subentendido que Cristo susterá até o fim os crentes aos quais Paulo escreve (v. 8). “Chamado”, nessa passagem, não pode significar simplesmente o convite do evangelho que pode ser rejeitado ou aceito; deve significar a “vocação eficaz” pela qual os amigos cristãos foram levados a um vivo relacionamento com Cristo.

            Paulo usa frequentemente o termo “chamado” no sentido de “vocação eficaz”. Ver, por exemplo, Romanos 1.7, 9.23,24, I Coríntios 1.26, Gálatas 1.15 e Efésios 4.1,4. Esse uso não é, contudo, restrito a Paulo; nós encontramos a mesma palavra, usada com o mesmo sentido por outros autores do Novo Testamento.

            Pedro a utiliza dessa forma em I Pedro 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou (kalesantos, de kaleo) das trevas para a sua maravilhosa luz”. Pedro se dirige aos seus leitores como “o povo escolhido” e “povo de propriedade exclusiva de Deus”, deixando claro que o “chamado” aqui significa mais que o convite do evangelho que pode ser recusado. Vocês não estão mais nas trevas, mas na luz, diz Pedro, por causa da “vocação eficaz” de Deus.
           
            Devemos olhar também o que diz II Pedro 1.10: “Por isso, irmãos, procurai com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”. Nessa passagem o chamado é mencionado no mesmo fôlego que a eleição e também é tratado como inseparavelmente unido á eleição. Há apenas um artigo definido (ten) antes dos dois substantivos, klesin (chamado) e eklogen (eleição). Isso significa que essas duas palavras são tratadas como uma unidade e devem ser vistas como tal: não nosso chamado separado da nossa eleição, mas chamado e eleição juntos.

            Obviamente, portanto, “chamado” (klesin), aqui, não pode se referir apenas ao convite do evangelho, por duas razões: (1) ele está ligado com “eleição” (eklogen) por um artigo definido, e “eleição” só pode dizer respeito à escolha que Deus faz desde a eternidade. Um chamado que forme uma unidade com a eleição só pode ser a “vocação eficaz”; (2) não adianta dizer a alguém que assegure ou confirme seu convite do evangelho; uma vez escutado o evangelho ou uma vez lida a mensagem do evangelho, a pessoa já foi chamada nesse sentido. “Confirmar a vossa vocação” deve significar: confirme que você foi eficazmente chamado – isto é, que você foi eleito para a vida eterna em Cristo. Você pode se assegurar disso, Pedro explica, reunindo diligentemente “(...) fé (...) conhecimento (...) domínio próprio (...) perseverança (...) peidade (...) fraternidade (...) e (...) amor” (v. 5-7). Observando os frutos da vocação eficaz em sua vida, Pedro está dizendo, você pode ter certeza de que foi efetivamente vocacionado.

            Um uso similar da palavra “chamado” pode ser encontrado no primeiro verso da epístola de Judas: “Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados (kletois), amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo”. Nem todos os que recebem o convite do evangelho são amados pelo pai e guardados em Cristo, mas somente aqueles que são eficazmente levados à comunhão do Deus trino. Há também uma passagem no livro de Apocalipse em que o termo “chamado” é usado para descrever os “chamados, eleitos e fiéis” de Cristo: “Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão também os que estão com ele, os chamados, e eleitos, e fiéis.” (Apocalipse 17.14). Concluímos que o Novo Testamento realmente ensina que há uma vocação eficaz de Deus, diferente do convite do evangelho.

Fonte: Salvos pela graça, Anthony A. Hoekema. p. 89-94.